Uma Noite de Emoções e Performances
No último domingo, 5 de abril, o Queremos! Festival no Rio de Janeiro teve o prazer de receber uma das atrações mais aguardadas: Fitti, que apresentou um show magistral interpretando o repertório do icônico Ney Matogrosso. O evento, realizado no Teatro Carlos Gomes, fechou com chave de ouro o segundo dia do festival, encantando a plateia com uma performance magistral do artista pernambucano.
Fitti, cantor, compositor e ator de Recife (PE), prestou uma homenagem à originalidade autoral de Ney, que está prestes a completar 85 anos em agosto. Com uma vitalidade impressionante, o artista conseguiu fugir do formato tradicional de um cover, trazendo nas 16 canções interpretadas uma nova interpretação, que reafirmou sua própria identidade e a liberdade que sempre caracterizou a obra de Ney Matogrosso.
O espetáculo, que nasceu do álbum homônimo idealizado por Marcus Preto, diretor artístico tanto do disco quanto do show, intitulado “Fitti canta Ney”, chegou ao público imbuído de uma teatralidade rica e uma sonoridade envolvente, sob a batuta do baterista Pupillo, que se uniu a uma banda composta por músicos talentosos como Yuri Queiroga na guitarra, Vinicius Furquim no teclado e Vic Vilandez no baixo.
Uma Estréia Marcante
O ambiente foi preparado com sons de chuva e trovões, criando um clima envolvente para a entrada triunfal de Fitti, que começou sua apresentação com “Homem de Neanderthal”, uma das faixas que fazem parte do primeiro álbum solo de Ney, lançado em 1975. A energia roqueira do início do show ficou evidente em músicas como “Tem gente com fome” e “Flores astrais”, que animaram o público logo de cara.
Fitti, ao se apresentar, trouxe uma performance que cativou não apenas com sua voz, mas também com seu corpo, se estabelecendo como o “cara meio estranho” mencionado em “Bandido corazón”, uma música de Rita Lee que trouxe uma pitada de latinidade e simbolizou um desvio criativo no roteiro da apresentação.
Em um momento tocante, Fitti destacou a carga política de “O patrão nosso de cada dia” em uma versão minimalista, com a guitarra de Queiroga realçando a mensagem. O bis, intencionalmente anticlimático, foi uma celebração do orgulho nordestino com a canção “Noite severina”, encerrando com um toque especial que evidenciou a forte personalidade do cantor.
Teatralidade e Interação com o Público
A direção de Marcus Preto foi visível em todo o espetáculo, principalmente em elementos como o biombo, que Fitti utilizou para mudar de figurino antes de interpretar “Mal necessário”. Essa música, de Mauro Kwitko, transpareceu a habilidade de Fitti em desafiar gêneros e normas sociais, reforçando sua versatilidade como artista trans.
A performance de “Bandolero” adquiriu um tom ritualístico, e Fitti manteve sempre a energia, incentivando o público a cantar junto em “Sangue latino” e interagindo com os espectadores ao descer para a plateia durante a apresentação de “Seu tipo”. O contraste com a delicadeza de “Viajante”, em que Fitti se sentou ao centro do palco, elevou a carga emocional da noite.
Um dos momentos mais inusitados foi a interpretação de “Dívidas de amor”, onde Fitti se destacou como compositor, trazendo um frescor ao brega pernambucano. Essa canção, do álbum “Bugre”, lançado há 40 anos, refletiu uma tentativa de inovação na já conhecida carreira de Ney. “Mente, mente”, também do mesmo álbum, foi revivida por Fitti em uma atmosfera de cabaré, enquanto “Balada do louco”, canção clássica dos Mutantes, recebeu uma nova vida sob sua interpretação envolvente.
Um Encerramento Impactante
Para fechar o espetáculo, Fitti ressignificou a clássica “Homem com H”, cantando com um toque pessoal que ecoou a trajetória do artista, o que fez com que o público, presente na estreia carioca do show “Fitti canta Ney”, percebesse que estava diante de um intérprete com uma carga autoral significativa. O cantor conseguiu ao mesmo tempo respeitar a história de Ney Matogrosso e reimaginar seu repertório, destacando que o tempo é um elemento que se renova, trazendo à tona o que já é antigo, mas ainda vibrante.

