Proposta de Código de Conduta e o Contexto Eleitoral
O ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), defende a necessidade de estabelecer regras de conduta para os integrantes da Corte. Em suas declarações, ele aponta que a falta de autolimitação pode abrir espaço para intervenções de poderes externos. “Quando tomei posse no STF, em 2015, já previa que, a longo prazo, haveria uma melhora na cultura interna do tribunal. A Operação Lava Jato, apesar de suas falhas, trouxe à tona a questão da corrupção, um tema que deve ser tratado com seriedade e ética”, afirmou Fachin.
Ele observou que a cautela de muitos colegas em debater essas questões se deve ao fato de ser um ano eleitoral, quando as instituições parecem estar mais vulneráveis. Fachin ressaltou que, embora haja quem considere desnecessário o debate sobre condutas, é essencial que o tribunal não se torne um alvo de pressões externas, lembrando situações em países como Polônia e Hungria, onde o judiciário enfrentou limitações severas.
Recentemente, Fachin também mostrou seu apoio à condução do STF no caso do Banco Master, em resposta a questionamentos sobre a atuação do ministro Dias Toffoli, relator do processo. “Eventuais irregularidades serão analisadas dentro dos limites regimentais e processuais”, garantiu. Segundo ele, o STF deve se proteger de pressões políticas e midiáticas que possam tentar deslegitimar a instituição.
Maturidade Institucional e Necessidade de Transparência
O ministro acredita que o STF já demonstra “maturidade institucional” suficiente para considerar a criação de um código de conduta como uma necessidade premente. Ele afastou a possibilidade de um impeachment, que segundo ele, poderia resultar em uma crise institucional grave. No entanto, Fachin reconheceu que, em algumas situações, a Corte “nem sempre se ajuda”, citando o alargamento do foro privilegiado como um exemplo.
Para ele, um código de conduta não deve ser visto como uma resposta moralista, mas sim como um passo em direção à transparência. “Todos somos falíveis e a vida não é de impecabilidade, mas é necessário que a regra que estabelecemos seja a da transparência total. Isso inclui questionar a atuação dos filhos dos juízes, quando eles advogam”, argumentou.
Fachin compartilhou que sua preocupação com a ética começou durante uma estadia na Alemanha, em 2012, quando o então presidente Christian Wulff renunciou após críticas por aceitar viagens de empresários. Também lembrou da demissão do ministro da Defesa alemão por mentir sobre plágio na sua tese de doutorado, ressaltando que esses casos reforçam a importância de uma conduta ética sólida.
Desafios e Propostas para o Futuro
O ministro advertiu que a elaboração de um código de conduta é apenas uma parte da solução, ressaltando que o Brasil enfrentará desafios relacionados ao uso de novas tecnologias durante as eleições, como a inteligência artificial e a atuação de magistrados nas redes sociais. “A resolução do Conselho Nacional de Justiça sobre magistrados e redes sociais será debatida em fevereiro”, disse.
Fachin já começou a buscar apoio entre os presidentes dos tribunais superiores para a criação de um código de conduta. A proposta, que conta com respaldo de colegas de outras cortes, é vista como um passo necessário para consolidar a integridade do Judiciário. O presidente do TST, Luiz Phelippe Vieira de Mello Filho, expressou apoio à ideia, afirmando que “é inadmissível que juízes atuem em outras áreas que possam gerar conflitos de interesse”.
Na mesma linha, o presidente do STJ, Herman Benjamin, também destacou a importância de um código de ética claro e equilibrado, afirmando que as normas atuais são vagas e trazem insegurança tanto para os juízes quanto para a população. A presidente do STM, Maria Elizabeth Rocha, também se manifestou favoravelmente à proposta, enfatizando que é crucial que o Supremo estabeleça um modelo a ser seguido pela magistratura em geral.
Entretanto, a discussão sobre a implementação de tais regras ocorre em um cenário político delicado, onde uma ala do STF questiona a viabilidade de um novo código, especialmente em meio à tramitação de uma nova Lei do Impeachment no Senado. O debate continua em busca de um consenso sobre a ética e a transparência necessárias no Judiciário brasileiro.

