A Essência do Carnaval Carioca
Desde 2025, os bate-bolas começaram a aparecer em eventos distintos, como nas ladeiras de Olinda, em comemorações voltadas ao autismo em Itaguaí e nas saídas fora de época na Intendente Magalhães. Embora frequentemente associados à criminalidade, esses grupos têm conquistado o reconhecimento que merecem.
Um dos destaques é a Turma da Fascinação, do bairro Oswaldo Cruz, que se apresenta às 22h. Anderson Buda, integrante da turma, compartilha: “Teve queima de fogo, oração. É um trabalho de um ano inteiro, tudo precisa funcionar perfeitamente. Fantasias de adultos, crianças e mulheres estão presentes. A emoção é palpável quando o portão se abre e a música começa a tocar; muitos choram, e outros ficam sem saber como reagir”.
No olhar para o futuro, as turmas de bate-bola passaram a participar de festivais e eventos comunitários ao longo do ano, frequentemente com o apoio da Prefeitura do Rio. Um exemplo disso foi o 3º Encontro de Turmas de Bate-Bola, realizado no Parque Oeste no ano passado.
Reconhecimento e Valorização Cultural
Pesquisadores, fotógrafos, cineastas e coletivos culturais começaram a dar a devida atenção aos bate-bolas. Exposições, livros e filmes promovem uma mudança de perspectiva, deslocando o foco do medo para a estética, do preconceito para a história, e da repressão para a escuta. Marcus Faustini, autor do documentário “Carnaval, Bexiga, Funk e Sombrinha”, enfatiza: “Em 2006, lançamos o primeiro filme que deu voz às turmas, evidenciando a rede comunitária, artística e econômica dessa manifestação cultural. Vinte anos depois, mais de 400 turmas mantêm viva a tradição do carnaval nos subúrbios. A cultura dos bate-bolas é a verdadeira cara do carioca, longe dos blocos voltados ao turismo”.
Museus e centros culturais, como o CRAB Sebrae, têm promovido exposições sobre o carnaval e os bate-bolas, retratando as fantasias e a rica história dessa tradição. Uma das mostras mais notáveis aconteceu no Sesc Madureira, com curadoria de Isabel Portella, apresentando o olhar artístico e documental do fotógrafo André Arruda sobre este movimento cultural que há quase um século enriquece o carnaval das periferias do Rio.
Isabel compartilha sobre a exposição: “Foi um sucesso absoluto, com 17 fotografias em grande formato, além de fantasias, máscaras e bandeiras das turmas. O público teve acesso a dois curtas documentais: ‘Jairinho Madruga’, que retrata um dos principais artesãos de máscaras, e ‘Bate-bola é Arte?’, que discute a relevância sociocultural dessa tradição”.
Conexões e Expansão Internacional
A fama dos bate-bolas cresceu e, numa manhã de sábado, eles se apresentaram no Museu de Arte Moderna do Flamengo, proporcionando à famílias da zona sul a oportunidade de conhecerem essa cultura, que, após os desfiles das Escolas de Samba, constitui a segunda maior economia do carnaval carioca. A participação no MAM estreitou laços com a cidade, incluindo oficinas de montagem de máscaras e conversas com aderecistas.
“O público não conhecia muito sobre a cultura dos bate-bolas, então participaram ativamente, montando máscaras, colorindo e colando. Essa experiência foi extremamente enriquecedora para todos nós”, destaca Buda.
Uma exposição próxima a Madureira resultou na participação dos bate-bolas no Casa Bloco, um festival carnavalesco que os inseriu como atração contratada. “Recebemos até uma compensação financeira, o que nos levou a formalizar nosso grupo como MEI para emissão de nota fiscal. Esse foi um marco na nossa profissionalização”, relata um outro integrante.
A trajetória os levou até a Inglaterra, onde se percebeu que o carnaval brasileiro vai muito além do que ocorre na Sapucaí ou na Bahia. O interesse foi imediato. Em 2025, mais de 800 bate-bolas deverão estar na pista, e a expectativa é que esse número chegue a mil. No final do ano, eles se tornaram o tema de uma grande exposição no Mercadão de Madureira, um dos maiores mercados populares do Brasil e Patrimônio Cultural Carioca de Natureza Imaterial, atraindo visitantes e celebridades devido à sua autenticidade e diversidade cultural. “Não poderia haver lugar melhor para isso”, afirma um integrante do grupo.
A Economia Criativa como Caminho para a Evolução
Anderson Buda acredita que a economia criativa é essencial para o crescimento dos bate-bolas. “Estamos utilizando a inteligência artificial para gerar renda, vendendo nossas roupas e kits. Outras turmas também começaram a explorar essa estratégia”.
Dois momentos significativos na indústria cultural ocorreram: a inserção dos bate-bolas em revistas em quadrinhos da Turma da Mônica e sua presença na novela “Volta Por Cima”, da TV Globo. O personagem Jão, interpretado por Fabrício Boliveira, e seu amigo Sidney, vivido por Adanilo, fazem parte do grupo Dragão Suburbano.
Esse reconhecimento evidencia a vida real dos integrantes desses grupos, geralmente dominados por homens, e a competição que envolve essa tradição. Neste ano, os bate-bolas têm sido homenageados em três exposições. No Centro Carioca de Fotografia, a mostra “Nação Bate-Bola” apresenta fotografias que documentam essa cultura ao longo de dez anos. Outra exposição, “Clóvis — Perigoso e Divertido”, com curadoria de integrantes de várias turmas, exibe máscaras e figurinos criados por 25 artesãos. O Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular traz à tona fantasias e adereços na mostra “Clóvis e os bate-bolas: nossa turma tá na rua!”, que pode ser visitada até 22 de fevereiro, resultado de um trabalho colaborativo de alunos de Museologia da Unirio.
Uma Turnê Internacional
Vincent Rosenblatt conheceu os bate-bolas através do cenário do baile funk carioca e decidiu retratar sua cultura em uma galeria de Paris. A acadêmica Aline Gualda Pereira investiga a origem dos bate-bolas, destacando a intersecção de influências da Alemanha e da Península Ibérica na Folia de Reis, e como, ao longo do tempo, o protagonismo masculino se consolidou nessa manifestação.
Os bate-bolas, fantasiados de maneira extravagante, utilizam suas próprias criações ao longo do ano, longe da visibilidade do Sambódromo. Seus enredos são variados, abrangendo desde princesas a super-heróis, e a participação nos grupos varia de 15 a 200 integrantes, totalizando cerca de 16 mil pessoas. Vale ressaltar a presença das bate-boletes, meninas que, mesmo sem a fantasia tradicional, contribuem com suas próprias criações.
Um Patrimônio Reconhecido
Em 2012, os bate-bolas foram reconhecidos como Patrimônio Cultural Carioca, recebendo destaque como uma expressão vital da tradição no Rio de Janeiro. Em 2022, a Secretaria Municipal de Cultura do Rio concedeu certificados a 400 grupos de bate-bola cadastrados, um primeiro mapeamento realizado pelo poder público, que possibilitou iniciativas políticas voltadas para esses grupos, conforme anunciado por Marcus Faustini em uma palestra na Queen Mary University of London.

