Reunião em Território Brasileiro
A reunião realizada no Rio de Janeiro pelo Palácio do Planalto assume um papel político crucial. Neste cenário, o presidente Lula almeja garantir a “foto da vitória” de um acordo que vem sendo discutido há mais de duas décadas. Este encontro representa a culminação de esforços políticos que visam destravar um tratado que é visto como essencial para o futuro econômico do Brasil e do Mercosul.
Segundo assessores próximos ao presidente, a agenda no Rio sintetiza a posição do Brasil como principal articulador entre o Mercosul e a União Europeia, especialmente na fase final do processo de negociação. Ao garantir a presença ao lado dos líderes europeus antes da assinatura formal, Lula busca consolidar sua influência e fortalecer o capital político da negociação, evitando, assim, expor-se a possíveis tensões que poderiam surgir em Assunção.
Articulação Política e Expectativas
Recebendo os líderes mais influentes da União Europeia no Brasil, Lula se coloca no centro da etapa final do processo de negociação. Embora o Paraguai tenha solicitado um evento de alto nível, o presidente optou por não comparecer à capital paraguaia, decidindo que o chanceler Mauro Vieira o representaria. De acordo com fontes próximas ao presidente, esta escolha foi estratégica, permitindo que Lula aproveitasse a visibilidade do encontro no Rio.
Até o momento, não há confirmação oficial sobre quais presidentes do Mercosul estarão presentes na cerimônia. Entretanto, a expectativa gira em torno da participação do presidente argentino Javier Milei, que é conhecido por seu relacionamento conturbado com Lula.
Interlocutores do governo brasileiro afirmam que a visita de Ursula von der Leyen e António Costa não foi um gesto meramente protocolar, mas sim o resultado de uma articulação cuidadosa que começou ainda no ano passado, durante a cúpula de presidentes do Mercosul em Foz do Iguaçu.
Destravar o Acordo: O Papel das Comunicações Diplomáticas
No final de 2023, a União Europeia vivia um cenário de incerteza em relação à possibilidade de aprovação do acordo, especialmente devido a resistências internas relacionadas ao setor agrícola. Um telefonema de Lula à primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, foi crucial para desbloquear a situação. Meloni mencionou a necessidade de tempo para resolver questões internas do orçamento agrícola europeu e os interesses do setor em seu país.
Segundo informações fornecidas ao presidente brasileiro, Roma não poderia avançar com o acordo antes do dia 20 de dezembro, o que adiou as deliberações para o início de janeiro. Com a sinalização positiva da Europa, as condições foram criadas para a etapa final do processo de assinatura.
Próximos Passos e Estrutura do Acordo
Paralelamente, a diplomacia brasileira havia discutido com o Paraguai que, após a fase europeia, a próxima etapa seria a realização de uma reunião ministerial para a assinatura do acordo. Este procedimento é essencial, pois, no caso da União Europeia, os signatários formais são os ministros, e não os presidentes.
O comissário de Comércio da União Europeia, Maroš Šefčovič, e os chanceleres do Mercosul terão a responsabilidade de formalizar o ato. O governo paraguaio, após uma reavaliação, decidiu que o encontro seria elevado ao nível presidencial. Após a confirmação da decisão de Bruxelas na semana anterior, von der Leyen e Costa consultaram Brasília sobre a logística da visita à América do Sul.
Após o encontro no Rio, uma breve declaração à imprensa está agendada, seguida da viagem dos líderes para Assunção, onde se espera que os ministros do Mercosul e da União Europeia formalizem a assinatura do acordo.
Implicações do Acordo e Futuro da Relação Mercosul-União Europeia
Lula tinha como objetivo concentrar a assinatura do acordo durante a cúpula de Foz do Iguaçu, quando o Brasil tinha um papel central nas negociações. Contudo, a aprovação final pelo Conselho Europeu ocorreu dias depois, fora do calendário da reunião, deslocando a etapa decisiva para quando a presidência do Mercosul fosse transferida ao Paraguai, que agora sediará o ato formal de assinatura.
A implementação do tratado ocorrerá em etapas. A parte comercial depende apenas da aprovação do Parlamento Europeu, que deve ocorrer por maioria simples. No âmbito do Mercosul, a vigência do acordo ocorrerá conforme os parlamentos nacionais ratificarem o texto. No que diz respeito ao pilar político do acordo, que abarca temas como democracia, multilateralismo e cooperação institucional, haverá a necessidade de submeter as propostas aos legislativos dos 27 países da União Europeia.
Em termos gerais, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia busca criar uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, com a redução gradual de tarifas sobre bens industriais, agrícolas e serviços, além de estabelecer regras comuns em áreas como compras governamentais, propriedade intelectual, comércio sustentável e compromissos ambientais.

