Desvendando a Complexidade da Formação Urbana do Rio
Por décadas, a narrativa sobre a história do Rio de Janeiro durante o período colonial foi simplificada, apresentando a ideia de que a cidade se desenvolveu apenas sob a influência de governadores, comerciantes abastados e autoridades da Coroa. Contudo, uma pesquisa recente, divulgada na revista Varia História pela historiadora Beatriz Catão Cruz Santos, revela uma cidade bem mais rica e diversificada. Os dados, extraídos de documentos do século XVIII, desmontam essa visão estreita, trazendo à tona a importância de artesãos, mecânicos e irmandades católicas na formação da vida social e urbana, especialmente no que hoje conhecemos como Centro histórico.
O estudo ilustra que figuras como carpinteiros, pedreiros, marceneiros, mascates e ourives não eram meros coadjuvantes no cenário urbano, mas peças fundamentais na engrenagem social da cidade. Esses trabalhadores não apenas construíam edifícios, igrejas e sobrados, mas também se engajavam ativamente na vida pública, buscando reconhecimento e afirmando sua identidade através da religiosidade – um aspecto cultural profundamente enraizado na colonização portuguesa.
As irmandades católicas surgem como um elemento central nesse contexto. No século XVIII, fazer parte de uma irmandade era mais do que uma demonstração de fé; era, de fato, uma expressão de poder e influência social. Essas associações de fiéis promoviam festas, missas e procissões que cruzavam as vias principais da cidade, como a antiga Rua Direita. Artesãos e trabalhadores, com suas hierarquias bem definidas, marchavam orgulhosos, demonstrando visibilidade e importância.

