O samba como expressão cultural e social
O samba que se desenvolveu no Rio de Janeiro no começo do século 20 é muito mais do que música: é um arquivo vivo de histórias e vivências que brotaram nos morros, subúrbios, terreiros e quintais das comunidades populares. Essa rica tradição deu origem a três formas distintas, mas interligadas, conhecidas como Matrizes do Samba: o partido alto, o samba de terreiro e o samba-enredo. Essas manifestações foram oficialmente reconhecidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como Patrimônio Cultural do Brasil, simbolizando seu valor imaterial e coletivo.
Características e dinâmicas das três matrizes
Embora cada uma das três expressões do samba tenha suas particularidades, todas compartilham a força da coletividade. No partido alto, o improviso é o coração da roda; os partideiros revezam-se criando versos que dialogam com os refrões sustentados pelos demais participantes. Esse exercício exige sensibilidade rítmica e poética, habilidades afinadas pela prática constante nas rodas de samba.
O samba de terreiro acontece em ambientes comunitários como quintais, quadras de escolas, terreiros e botequins. Suas letras refletem o cotidiano, as relações sociais e as vivências das comunidades, incluindo festas, afetos, conflitos e desigualdades. É uma manifestação que valoriza a convivência e a participação ativa de cantores, músicos e dançarinos.
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Já o samba-enredo nasceu entre as décadas de 1920 e 1930, especialmente nas rodas do bairro do Estácio de Sá e nas escolas de samba. Essa forma musical se consolidou como trilha sonora dos desfiles de Carnaval, narrando as histórias e temas escolhidos pelas agremiações. Apesar das transformações e da profissionalização, o samba-enredo mantém seu vínculo estreito com as escolas e seus territórios, traduzindo em música e letra desde episódios históricos até manifestações da cultura popular e ancestralidades negras.
Reconhecimento e preservação do patrimônio imaterial
As Matrizes do Samba no Rio de Janeiro foram inscritas no Livro de Registro das Formas de Expressão em 20 de novembro de 2007, a partir do pedido do Centro Cultural Cartola. Esse reconhecimento valoriza práticas e saberes transmitidos entre gerações, que são referência para os grupos que mantêm essas tradições vivas.
Em 25 de março de 2025, o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural revalidou o título de Patrimônio Cultural do Brasil para as Matrizes do Samba no Rio de Janeiro. Esse processo envolveu a atualização de informações sobre o patrimônio e recomendações para sua salvaguarda, garantindo que essas expressões continuem sendo cultivadas.
Mais de cem anos depois do início da consolidação dessas formas de samba, o partido alto, o samba de terreiro e o samba-enredo permanecem vibrantes nas rodas, encontros de sambistas, festas comunitárias e escolas de samba. São nesses espaços que conhecimentos musicais, histórias e modos de fazer continuam a ser compartilhados, conectando gerações e fortalecendo a cultura carioca.

