Debates marcantes movimentam o terceiro dia da FLIN 2026
A Festa Literária Internacional de Niterói (FLIN 2026) trouxe à tona temas que reverberam no cenário social e cultural brasileiro durante o terceiro dia do evento, realizado no sábado (15). A cidade se encheu de vozes influentes da literatura e do pensamento contemporâneo, entre elas a escritora Conceição Evaristo, o historiador Luiz Antônio Simas, a jornalista Ana Paula Araújo, o poeta Fabrício Carpinejar e o sociólogo Jessé Souza. Esses nomes impulsionaram discussões sobre a história do Estado do Rio de Janeiro, violência de gênero, manifestações culturais populares e o processo criativo literário, atraindo um público atento e engajado.
Reflexões sobre a fusão dos estados e o futuro político de Niterói
Um dos momentos mais expressivos da programação foi a mesa intitulada “Fusão Autoritária e o Futuro do Rio de Janeiro”, que contou com a presença do prefeito Rodrigo Neves e do cientista político Christian Lynch. Eles analisaram a fusão dos antigos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, ocorrida em 1975 sob o regime militar, e seus impactos duradouros. Ressaltaram que a medida foi imposta sem consulta popular, provocando o esvaziamento político e econômico de Niterói, além de apagar parte da memória e da identidade fluminense.
Rodrigo Neves destacou a capacidade de reinvenção da cidade: “Niterói não ficou chorando pelos cantos e se reinventou. Se deixou de ser a capital do estado do Rio, hoje é referência em boa gestão, democracia e qualidade de vida no país. Esse modelo é replicável, desde que se trabalhe com planejamento e evidências, contrariando as práticas adotadas no Rio de Janeiro.”
Já Christian Lynch contextualizou a fusão como um ato autoritário do governo federal, que resultou na perda da autonomia de Niterói e na predominância da memória carioca em detrimento da identidade fluminense. “Niterói tem sua própria história e identidade, que não se confundem com as do Rio de Janeiro. Essa distinção permanece viva e é fundamental para compreender a região”, reforçou.
Violência de gênero e a importância da escuta
A jornalista Ana Paula Araújo abriu a programação do sábado com uma abordagem sensível sobre violência de gênero, baseada em seus livros-reportagem “Abuso” e “Agressão”. Ela ressaltou a necessidade de dar voz às vítimas e combater a culpabilização das mulheres, ampliando a percepção sobre as múltiplas formas desse tipo de violência.
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“Ensina-se que as mulheres devem limitar sua liberdade para se proteger, mas isso não basta. É fundamental proporcionar espaços para que possam falar, serem ouvidas e não julgadas”, explicou Araújo, destacando o valor do acolhimento e da escuta ativa para transformar realidades.
Cultura popular como resistência e memória coletiva
O historiador Luiz Antônio Simas trouxe à tona a rua como palco de cultura, encontro e reexistência. Ele destacou como manifestações populares — carnaval, futebol de várzea e religiosidades tradicionais — desafiam a violência e exclusão históricas, promovendo redes de pertencimento e preservação de saberes.
“Minha perspectiva é a afirmação da vida diante da morte. Fazemos festa não porque a vida seja fácil, mas justamente porque ela é dura. O carnaval e outras manifestações afirmam modos coletivos destruídos pela violência histórica”, afirmou Simas.
Literatura e memória negra ganham voz no Palco Territórios
No Palco Territórios, Conceição Evaristo e Eliana Alves Cruz emocionaram o público durante a mesa “Escreviventes”. Conceição revisitou sua infância e homenageou as mulheres da família que, sem diplomas, foram fundamentais para sua trajetória, ressaltando o afeto, curiosidade e acesso à educação como alicerces.
“As mulheres da minha família, com sua sabedoria, me trouxeram até aqui. A curiosidade que tive desde criança e o convívio com minha tia, que tinha melhores condições, foram decisivos para eu poder estudar”, relembrou a escritora. Ambas ressaltaram a escrita como ferramenta de resistência e valorização das narrativas negras e femininas na literatura brasileira.
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A poesia, o afeto e a pluralidade cultural na FLIN
O poeta Fabrício Carpinejar atraiu o público com a palestra “Transformação pelo afeto: que ninguém seja invisível ao seu lado”, onde compartilhou relatos sobre autoconhecimento e a importância de enxergar o outro com sensibilidade.
Durante o dia, o Espaço Nikitinhos recebeu contação de histórias e o encontro dos criadores da série infantojuvenil “As Aventuras de Mike”, enquanto a Arena FLIN promoveu debates sobre colecionismo literário e acolhimento ao luto. Na Sala Nelson, o sociólogo Jessé Souza abordou os desafios da reparação histórica, seguido por um painel sobre autoria feminina na música popular com Fátima Guedes e Teresa Cristina.
Além disso, questões de representatividade na dramaturgia e diversidade LGBTQIAP+ mobilizaram os participantes, reforçando o compromisso da FLIN com a pluralidade e a inclusão cultural.
Encerramento com poesia, humor e hip-hop no palco Lélia Gonzalez
A programação noturna reuniu encontros poéticos com Igor Pires e Pedro Salomão, debateu processos criativos com Marcelo Adnet e Edu Krieger e contou com o tradicional Sarau Corujão da Poesia. A Batalha do Conhecimento, comandada por MC Marechal e Leall, celebrou o hip-hop como expressão de consciência social, política e cultural.
A FLIN 2026 encerra suas atividades neste domingo (16) com uma grande celebração da literatura e das artes, tendo como destaque a participação da atriz e escritora Fernanda Torres. Organizada pela Prefeitura de Niterói por meio da Fundação de Arte de Niterói (FAN), a edição deste ano segue o tema “Territórios das Palavras” e presta homenagem à antropóloga e ativista Lélia Gonzalez. Toda a programação é gratuita, reforçando o papel do festival como um dos principais eventos literários do país.

