O Cenário Político de Flávio Bolsonaro
Em um trajeto breve entre os bairros Barra Funda e Santa Cecília, em São Paulo, um motorista de aplicativo aponta Flávio Bolsonaro como o principal adversário de Lula (PT) nesta eleição. “Fábio Bolsonaro”, ele menciona com uma certa hesitação, evidenciando a complexidade que envolve a figura do senador.
A notoriedade do sobrenome Bolsonaro, que se transformou em um fenômeno político conhecido como bolsonarismo, confere a Flávio uma vantagem significativa. Ele tem se posicionado como o sucessor natural do pai, Jair Bolsonaro, desde a pré-campanha, ao contrário de Fernando Haddad, que foi oficializado como candidato a menos de um mês do primeiro turno da eleição de 2018.
Em parceria com o Estadão, o Instituto Travessia compilou um relatório que sintetiza percepções de grupos focais sobre o pré-candidato do Partido Liberal ao Palácio do Planalto. Foram avaliadas 12 pesquisas qualitativas realizadas entre setembro de 2025 e março de 2026 em diversos estados brasileiros, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e outros. É importante ressaltar que o documento possui caráter analítico, sem rigor estatístico.
Importância das Pesquisas Qualitativas
Como já destacado anteriormente, as pesquisas qualitativas são essenciais para compreender a mentalidade do eleitor, revelando desejos, expectativas e opiniões sobre os candidatos. Essas análises ajudam as campanhas a identificar os principais fatores que influenciam a escolha do voto, oferecendo uma visão mais aprofundada sobre a percepção pública de cada candidato.
Um dos principais achados do levantamento é o baixo nível de reconhecimento sobre a trajetória política de Flávio Bolsonaro. Muitos eleitores não têm clareza acerca de seu papel atual como senador pelo Rio de Janeiro e sua experiência anterior como deputado estadual, além de estarem mais familiarizados com sua imagem como filho do ex-presidente.
Ademais, Flávio frequentemente é confundido com Eduardo Bolsonaro, seu irmão, que reside nos Estados Unidos desde o ano passado. Essa falta de individualidade na identificação pode prejudicar sua campanha.
Desafios e Oportunidades para Flávio Bolsonaro
As pesquisas também indicam que Flávio ainda carece de uma base sólida de apoiadores e não desperta um engajamento emocional significativo entre os eleitores. “Sua força nas pesquisas vem do antipetismo, da transferência simbólica do bolsonarismo e da falta de uma concorrência forte à sua direita”, analisa Renato Dorgan, cientista político e CEO do Instituto Travessia. Dorgan se refere a Flávio como um “candidato viável, mas ainda não consolidado”.
O eleitorado que demonstra preferência por Flávio é composto, em sua maioria, por homens com mais de 40 anos, que possuem uma ideologia definida e uma forte rejeição a Lula e ao PT. Muitos afirmam que votariam nele “por causa do Bolsonaro” ou “contra a esquerda”.
Em sua análise, Dorgan elenca quatro fragilidades que Flávio precisa enfrentar: o baixo reconhecimento, a ausência de uma identidade própria, a dependência excessiva da polarização política e a dificuldade em expandir seu eleitorado para além do núcleo ideológico que o apoia.
O Impacto do Antipetismo e a Concorrência no Cenário Político
Embora a associação com Jair Bolsonaro tenha colocado Flávio como um importante nome de oposição a Lula, essa herança também traz desafios. Ele herda o capital do antipetismo, mas, ao mesmo tempo, deve lidar com a rejeição ao bolsonarismo e a ambiguidade em sua própria identidade política. Para muitos eleitores, Flávio representa uma “continuidade sem novidade”, o que pode gerar descontentamento entre seus apoiadores, segundo Dorgan.
Apesar dessas dificuldades, o relatório aponta uma demanda significativa por um candidato de direita que não esteja vinculado ao bolsonarismo, especialmente nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Essa demanda é evidente entre eleitores de classe média e média alta, que têm um maior nível de escolaridade e informação, e que correm o risco de apoiar um concorrente mais competitivo caso surja.
No cenário atual, Caiado é visto como o principal candidato capaz de atrair votos de Flávio, especialmente entre eleitores mais informados nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste. A perda de votos pode ser mais acentuada em cidades com alta densidade populacional e maior nível educacional.
Por outro lado, Flávio parece ter uma posição vantajosa no Norte e no Nordeste, onde Caiado ainda é menos conhecido e a polarização entre Lula e Bolsonaro já está bem estabelecida. O mesmo se aplica ao Rio de Janeiro, onde o bolsonarismo mantém forte apelo entre o eleitorado, especialmente nas classes C e D.
“Neste momento, o crescimento de Flávio parece depender mais das circunstâncias externas, como a intensidade da rejeição a Lula e a eventual solidificação de uma alternativa competitiva à direita”, conclui Dorgan.

