A Identidade das Ruas do Rio de Janeiro em Mudança
Já faz um bom tempo que não passo por lá, uma travessa de 60 metros que conecta a Treze de Maio à Senador Dantas, onde está localizado o mais antigo restaurante árabe da cidade. Naquele trecho em frente ao Teatro Municipal, sempre havia um indivíduo oferecendo folhetos com imagens de mulheres, com curvas exageradas por meio de edição digital, e o aviso de ‘as melhores novinhas do Centro’. Uma situação bastante pesada. Eu costumava observar o contraste entre a vulgaridade exposta nos panfletos e o lirismo da placa no poste ao lado, onde o homem se encostava – em uma ocasião, comecei a redigir um texto afirmando que ‘não existe poesia na Travessa dos Poetas de Calçada’.
Outra rua com um nome curioso é a do Jogo da Bola, localizada no alto do Morro da Conceição, lugar que não visito há anos. Aquela rua era um verdadeiro quintal de paz. Após saborear um cabrito no 28 da Barão de São Félix, eu subia as escadas da Camerino, atravessava o Jardim Suspenso do Valongo, caminhava pela Rua do Jogo da Bola e descia a Ladeira do João Homem – considerada a rua mais bonita da cidade – até alcançar o estresse da Praça Mauá.
Agora, me pergunto: será que essas ruas também ganharam o nome de Rua do Perdeu?
Recentemente, tenho acompanhado as notícias e, diariamente, em pelo menos uma via da cidade, um morador cansado de ser assaltado pela dupla em motocicleta decide pegar um balde de tinta ou um pedaço de giz e renomeia a rua, seja no asfalto, na calçada ou até mesmo em uma parede. Em Niterói, os moradores da Hernani Pires de Mello, nas proximidades da UFF, foram além e alteraram diretamente no Google Maps, deixando registrado digitalmente o apelido que melhor define aquele local.
Um dos meus textos preferidos é ‘A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro’, de 1992, um conto peripatético de Rubem Fonseca ambientado no Centro. Nada extraordinário ocorre, exceto o zigue-zague do autor por cenários com nomes belos como Marrecas, Carioca, Quitanda, Ouvidor e Conceição. Joaquim Manuel de Macedo, em 1862, recheou ‘Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro’ com menções a ruas que hoje são conhecidas por outros nomes – como Ourives (hoje Miguel Couto), Cano (atuais Sete de Setembro) e Direita (atualmente Primeiro de Março).
Na velocidade das transformações atuais, temo que futuras edições dos livros de Fonseca e Macedo tragam novas atualizações nos nomes, talvez adicionando referências como ‘atualmente Rua Perdeu, Playboy’ ou ‘em 2026 corrigida para Rua do Perdeu, Mané’. As ruas do Rio antigamente eram rebatizadas pelo progresso da civilização. A Montenegro, em Ipanema, desistiu do nome que homenageava o proprietário de terras para celebrar Vinicius de Moraes. Agora, é a violência que confere identidade.
O nome de uma rua representa uma forma de imaginação, uma proposta de cidade que se deseja. Morar na esquina de Acácias com Ipês soa mais poético do que em um logradouro chamado Quinta Avenida. Eu li o Guia Rex e acredito nos mistérios que esses nomes escondem. Qual teria sido a influência de ter estudado no colégio estadual da Taquara, situado na Rua dos Prazeres?
A Rua do Perdeu gradualmente se torna o endereço coletivo de todos, uma vasta avenida que atravessa os bairros e obscurece a poesia que deveria estar inscrita nas placas. Tenho um antigo cartão-postal de um muro coberto de hera com uma dessas placas azul-anil, onde se lê Rua Aprazível. Não se trata apenas de um endereço, mas de uma ideia para a construção de uma cidade mais sonhadora e menos marcada pela violência.

