Apostas e Previsões: Um Novo Mercado em Ascensão
As plataformas de previsões começam a ganhar destaque no Brasil, com perspectivas de movimentar até US$ 1 trilhão anualmente nos Estados Unidos até o final da década, conforme apontado pela consultoria Eilers & Krejcik Gaming. Recentemente, grupos financeiros, com investimentos consideráveis, têm explorado esse nicho no país, mesmo diante da incerteza sobre a regulação de um setor que, embora similar às apostas, busca se diferenciar de maneira significativa.
As principais plataformas em operação nos Estados Unidos, como Polymarkets e Kalshi, já oferecem eventos brasileiros nos quais os usuários podem realizar apostas. Na verdade, a B3, operadora da Bolsa de Valores brasileira, e instituições como XP Investimentos e BTG Pactual estão entre as primeiras a lançar iniciativas nesse novo mercado, com potencial de movimentar entre R$ 20 bilhões a R$ 40 bilhões anualmente, segundo analistas do Itaú BBA.
O Crescimento do Mercado Preditivo
O mercado preditivo tem vivenciado um crescimento notável desde as eleições presidenciais americanas de 2024. Essa nova forma de investimento combina apostas eletrônicas com a especulação financeira, fundamentada nos chamados “contratos de eventos”. Tais contratos são estabelecidos com base em cenários futuros, onde os investidores determinam, de maneira binária, se um evento ocorrerá ou não. O valor de negociação entre os apostadores estabelece um preço que reflete a probabilidade daquele fato se concretizar.
Nos Estados Unidos, esses contratos são considerados derivativos, um tipo de ativo que derivam seu valor de um evento futuro. Historicamente, a CFTC, responsável pela regulamentação de derivativos nos EUA, tinha reservas quanto a esses contratos; no entanto, a partir de 2020, eles começaram a ser autorizados, destacando a Kalshi, cofundada pela brasileira Luana Lopes Lara. Seu êxito a fez ser reconhecida na Forbes como a bilionária mais jovem do mundo sem herança. Por outro lado, a Polymarket, que lançou sua operação em 2020, enfrentou a proibição pela CFTC em 2022, mas obteve permissão para retornar ao mercado no ano seguinte, embora ainda enfrente desafios em outros países.
Novas Iniciativas no Brasil
Com o crescente sucesso das apostas no Brasil, o país se mostra promissor para essa nova abordagem. Atualmente, pelo menos 215 contratos mencionando eventos brasileiros estão disponíveis na Polymarkets, abrangendo desde quem vencerá o Big Brother Brasil até quem será eleito presidente em 2026. A Kalshi também apresenta contratos semelhantes, envolvendo partidas do Campeonato Brasileiro e lutas de MMA.
Em março, a XP formalizou uma parceria com a Kalshi para disponibilizar contratos associados à economia nacional, focando em aspectos como inflação e taxa de juros. Inicialmente, os palpites estarão disponíveis para os clientes da marca Clear que possuem conta de investimento internacional.
A B3, por sua vez, obteve autorização da CVM, órgão que regula o mercado de capitais do Brasil, para lançar seis contratos vinculados ao desempenho do Ibovespa, além de cotações do dólar e do Bitcoin, com expectativa de lançamento em breve. Esses novos produtos serão oferecidos através de corretoras a investidores profissionais que mantêm mais de R$ 10 milhões em ativos.
Desafios Regulatórios e Futuro do Mercado
A abertura do BTG Pactual na última semana também indica um movimento significativo no setor, ao permitir que clientes de perfil “sofisticado” acessem a nova plataforma BTG Trends. A instituição planeja lançar seus próprios contratos em formato de opções, disponíveis exclusivamente na plataforma do banco.
A VoxFi, uma startup criada pelos irmãos Fernando e Luis Felipe Carvalho, lançou recentemente sua plataforma, buscando autorização da CVM para permitir contratos que envolvam ativos financeiros, além de eventos relacionados a entretenimento e geopolítica.
De acordo com Fernando Carvalho, a regulamentação é essencial para garantir a proteção e a integridade do mercado. Ele observa que a colaboração com órgãos reguladores é crucial para a sustentabilidade a longo prazo do negócio.
Expectativas do Setor
Executivos e especialistas do setor destacam que a expansão dos mercados preditivos reflete uma mudança significativa nos modos de investimento. Luana Lara, cofundadora da Kalshi, explica que as decisões de investimento são frequentemente moldadas por expectativas futuras, e os contratos de eventos criam uma maneira mais eficiente de abordar essas previsões e análises.
Um estudo recente, liderado por um economista do Federal Reserve, sugere que os contratos de eventos superam modelos econométricos tradicionais em algumas previsões. Além disso, esses mercados atraem um público mais jovem, conectado às redes sociais e que busca maior fundamentação em suas apostas, conforme apontado por um executivo que preferiu se manter anônimo.
Embora o Brasil ainda esteja na fase inicial de regulamentação de mercados preditivos, a movimentação de R$ 240 bilhões em apostas eletrônicas no país, segundo o Banco Central, apresenta um grande potencial para a migração de uma parte desse volume para o novo mercado de previsões. Analistas do Itaú BBA estimam que cerca de 10% do total poderia ser transferido, atraindo investidores que buscam alternativas mais fundamentadas do que as tradicionais apostas.
Desafios a Serem Superados
Contudo, as plataformas de previsões enfrentam resistência no Brasil. O IBJR, que representa as principais plataformas de apostas, defende que o novo segmento deve ser regulado da mesma forma que as apostas digitais já autorizadas, aplicando tributos e normas equivalentes. Para esta entidade, os contratos sobre resultados de eventos são, na prática, apostas.
Adicionalmente, no cenário internacional, a Kalshi reporta que 90% de suas transações estão relacionadas a esportes. No último Super Bowl, o valor movimentado pela plataforma foi de US$ 1 bilhão, indicando o enorme potencial desse tipo de mercado.
Enquanto isso, a regulamentação brasileira segue indefinida. A Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) confirmou que os mercados preditivos estão na sua agenda, mas ainda não existem empresas brasileiras formalmente autorizadas a operar. A SPA ressaltou que qualquer ação futura dependerá das análises técnicas em andamento e da articulação com os órgãos competentes, incluindo a CVM.
Com as iniciativas desenvolvendo-se rapidamente, o Brasil poderá se tornar um dos maiores mercados preditivos do mundo, contanto que as questões regulatórias sejam resolvidas de maneira eficaz.

