As Consequências do Tarifaço
Há um ano, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, proclamou o que chamou de “Dia da Libertação” ao anunciar tarifas elevadas sobre diversos parceiros comerciais. Essa medida visava a implementação de “tarifas recíprocas”, um movimento que acirrou ainda mais a guerra comercial já existente. Até aquele momento, Trump havia elevado tarifas sobre a China e países vizinhos como México e Canadá, mas foi a partir desse anúncio que se intensificaram os embates comerciais.
Inicialmente, o Brasil não foi diretamente impactado, exceto no setor de aço, onde se destaca como um dos principais fornecedores do mercado americano. No entanto, em julho do ano passado, Trump anunciou uma sobretaxa de 40% sobre as exportações brasileiras, além dos 10% que já estavam em vigor desde abril, gerando enorme preocupação entre os exportadores.
Impactos no Comércio
Após um ano desafiador, as exportações brasileiras para os EUA sofreram uma queda de 6,7% em comparação com o ano anterior, totalizando US$ 37,7 bilhões. O Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) também abriu uma investigação contra o Brasil, citando questões como desmatamento ilegal na Amazônia e a concorrência supostamente desleal causada pelo sistema de pagamentos Pix.
Embora o Brasil tenha enfrentado obstáculos significativos, a análise das exportações totais do país revela uma realocação para outros mercados, já que as exportações nacionais cresceram 3,5% em relação ao ano passado, somando um recorde de US$ 348,6 bilhões.
Reviravolta Judicial
Em fevereiro deste ano, a Suprema Corte dos EUA declarou que a base legal para o aumento das tarifas era inconstitucional, revertendo grande parte das sobretaxas impostas. Contudo, as taxas sobre o aço e seus subprodutos permaneceram inalteradas, enquanto a investigação do USTR continua a ser uma ameaça constante.
A decisão judicial trouxe um alívio para diversos setores, incluindo produtos alimentícios, que conseguiram escapar de tarifas mais pesadas. Após o veredicto, muitos exportadores brasileiros se apressaram para restabelecer contatos comerciais e retomar os embarques para os EUA, prevendo uma tarifa global de 10% que tornaria as exportações novamente viáveis.
Expectativas para o Comércio
A Novus, uma fabricante de equipamentos eletrônicos de Canoas (RS), já está se preparando para aumentar suas exportações para os EUA, após ter perdido cerca de 10% de suas vendas naquele mercado. Seu CEO, Marcos Dillenburg, afirmou que a empresa está disposta a enviar o máximo possível de produtos, apesar das incertezas que ainda pairam sobre o cenário comercial.
Por outro lado, a Frescatto, uma das principais processadoras de pescado do país, também se prepara para retomar seus embarques para os EUA, especialmente com a aproximação da temporada de pesca. O diretor de Comércio Exterior da empresa, Rafael Barata, expressou otimismo, mas ressaltou a necessidade de diversificação de mercados como uma estratégia de mitigação de riscos.
Desafios e Confiabilidade no Comércio Bilateral
Guilherme Ranssolin, CEO da Randa, uma empresa que exporta madeira, relatou que a decisão da Suprema Corte foi um divisor de águas para os exportadores brasileiros, permitindo uma competição mais equilibrada com outros países da América do Sul, como o Chile.
Enquanto isso, a NetunoUSA, uma importadora de pescados congelados, afirma que a incerteza sobre futuras tarifas pode dificultar a previsão de negócios, uma vez que as regras mudaram drasticamente nos últimos 12 meses.
Considerações Finais
A realidade do comércio entre Brasil e EUA continua repleta de incertezas, mas a reversão das tarifas elevadas traz um sopro de esperança para os exportadores brasileiros. Entretanto, a dependência de um mercado e a necessidade de diversificação permanecem como elementos cruciais para a sustentabilidade a longo prazo. Assim, a trajetória futura do comércio bilateral dependerá tanto das políticas comerciais do governo americano quanto da capacidade dos exportadores brasileiros de se adaptarem a um cenário em constante mudança.

