A Trajetória de Ana Rita no Carnaval Carioca
A festa Bembé do Mercado, rica em tradição e cultura, foi um tema central na pesquisa de Ana Rita, que se aprofundou no assunto em sua dissertação de mestrado, defendida no Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceao) da Universidade Federal da Bahia (Ufba). A pesquisa não apenas consolidou as bases acadêmicas, mas também ajudou a contar a história do Bembé na Sapucaí, no último dia 16 de fevereiro.
No dia 18, durante a apuração das notas, a escola de samba Beija-Flor conquistou o segundo lugar na competição, atrás apenas da Unidos do Viradouro, que somou 270 pontos. As escolas de samba retornarão ao sambódromo neste sábado, dia 21, para o Desfile das Campeãs.
Em entrevista ao g1, Ana Rita revelou que os integrantes da Beija-Flor encontraram seu trabalho anterior — um estudo feito em parceria com o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), localizado em Salvador. A partir desta conexão, eles decidiram aprofundar a pesquisa, levando-a até a dissertação de mestrado.
Uma Conexão entre Pesquisa e Carnaval
Durante um ano de intensas pesquisas, membros da Beija-Flor viajaram até a Bahia, visitando Santo Amaro, interagindo com a comunidade local e realizando um levantamento de dados históricos sobre a celebração. Essa colaboração não só enriqueceu a pesquisa, mas também estreitou os laços entre o ambiente acadêmico e o universo do carnaval.
A professora destacou a importância desse intercâmbio: “Houve uma troca extrema e constante. Eles já tinham lido minha dissertação e outros textos que publiquei. Tiveram uma preocupação muito grande em representar Santo Amaro de maneira respeitosa, pensando no Bembé com todo o cuidado necessário”, afirmou Ana Rita, que esteve presente tanto no desfile quanto na apuração dos votos.
A Beija-Flor, ao homenagear o Bembé do Mercado, o maior candomblé de rua do mundo, trouxe à tona não apenas uma festa, mas um profundo legado cultural. A equipe de carnaval, liderada pelo carnavalesco João Vitor de Araújo, foi responsável pela concepção artística das alegorias e fantasias, enquanto Ana Rita contribuiu com um embasamento histórico e esclarecimentos sobre aspectos culturais e religiosos.
Entendendo o Bembé do Mercado
O Bembé do Mercado, iniciado em 1889, um ano após a abolição da escravatura, é celebrado todo dia 13 de maio. Com raízes na religiosidade popular africana, a festa é um culto às divindades das águas, Iemanjá e Oxum, e um momento de gratidão pela proteção individual e coletiva. Em 2019, o Bembé foi reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), além de ser Patrimônio Imaterial da Bahia desde 2012.
Para Ana Rita, o Bembé simboliza a organização das populações negras no pós-abolição e reitera seu valor como patrimônio cultural brasileiro. A presença desta manifestação na Sapucaí, segundo a professora, ampliou seu reconhecimento e relevância: “Quando a Beija-Flor escolhe um tema como o Bembé, as pessoas começam a perceber a importância dessa história que existe há muito tempo”.
Aproximadamente 40 representantes do Bembé viajaram ao Rio de Janeiro para desfilar no último carro alegórico da Beija-Flor. Ana Rita enfatizou a importância simbólica dessa participação: “Eles representam os valores civilizatórios das populações negras e das religiões de matriz africana. Desfilar nesse evento de grande visibilidade é essencial para dar reconhecimento a essas culturas”.
Nascida em Santo Amaro, Ana Rita construiu sua trajetória acadêmica em Feira de Santana e atualmente leciona na Universidade do Estado da Bahia (Uneb), em Santo Antônio de Jesus. Ela também coordena o “Centro de Referência Bembé do Mercado: memórias e patrimônios de povos do terreiro e religiões africanas e afro-indígenas”.
Seu interesse por este tema é profundamente pessoal e acadêmico, começando com um convite para mapear terreiros em Cachoeira e evoluindo para uma especialização, mestrado e anos dedicados ao estudo das populações negras no Brasil após a escravidão. O trabalho de Ana Rita foi, sem dúvida, fundamental para a narrativa apresentada no desfile da Beija-Flor, celebrando a rica tradição do Bembé do Mercado.

