Um relato de superação e dor
Após anos em silêncio, a mulher que sofreu abusos sexuais na infância por parte do cantor R. Kelly resolveu compartilhar sua história. Em um relato emocionante, ela descreve como o processo de aliciamento começou. Segundo suas declarações, o cantor se aproximou de sua família, fazendo-se passar por um amigo e frequentando a igreja onde ela ia. No início, as conversas eram sobre música e escola, mas logo se transformaram em controle e isolamento, culminando em abusos sexuais. “Eu aprendi sobre sexo pela lente de um pedófilo”, afirmou.
Landfair relata que acreditava viver uma conexão especial com o cantor. Ele a fazia sentir que existia um entendimento profundo entre eles, mas isso logo se tornava uma armadilha. Frases como “Se você me ama, precisa fazer o que eu digo” se tornaram comuns. As recusas dela a atos que ele chamava de “o próximo nível” resultavam em punições que a deixavam ainda mais confusa e amedrontada.
A exposição e suas consequências
Um vídeo, que viralizou no início dos anos 2000, revelou a gravidade da situação: nele, R. Kelly aparece urinando sobre a adolescente. O material chocante foi exibido repetidamente em um julgamento que durou seis anos. Embora Kelly tenha sido absolvido em 2008, Landfair não testemunhou naquela ocasião. “Foi degradante, constrangedor, traumatizante. Meu corpo exposto ao mundo”, desabafou, ressaltando o impacto que isso teve em sua vida.
Ela também comentou sobre a falta de proteção de sua identidade durante o processo judicial, afirmando que seu nome e sobrenome eram conhecidos por todos. “Como meu nome não foi ocultado, isso significava que todos sabiam quem eu era. Ouvi risadas e suspiros de jurados enquanto assistiam a um vídeo de pornografia infantil em um julgamento sobre pornografia infantil”, lamentou.
Reflexões sobre raça e vitimização
Landfair refletiu sobre o racismo que a cercou durante todo esse processo. “Se eu fosse uma garota branca, teria sido tratada como vítima. Meninas negras muitas vezes são vistas como ‘adiantadas’ e, quando vitimizadas, a culpa recai sobre nós”, criticou, trazendo à tona uma questão importante sobre a percepção social. Mesmo após a absolvição de Kelly, Landfair continuou próxima a ele por alguns anos, mas decidiu se afastar aos 26. “Eu estava perdida e assustada. Tive que reconstruir minha vida”, revelou.
Ela afirmou que, por muito tempo, não se via como uma vítima, uma vez que a sociedade a rotulava de forma negativa, enquanto o cantor recebia elogios. Contudo, a virada em sua vida aconteceu em 2019, ao assistir à série documental “Surviving R. Kelly”. Segundo ela, foi um momento devastador, pois percebeu que não estava sozinha: “Vi que tantas outras mulheres foram vítimas como eu. Isso me fez sentir uma culpa enorme. Eu o protegi por tanto tempo”, desabafou.
Testemunho e libertação
Em 2022, Landfair finalmente decidiu testemunhar contra R. Kelly em Chicago. “Foi um momento de expurgo. Eu não escondi nada. Ao sair do tribunal, deitei no chão e chorei. Foi como se todas as toxinas saíssem de mim”, disse, descrevendo a experiência como espiritual. Kelly foi condenado a 30 anos de prisão em Nova York, em 2021, e mais 20 anos em Chicago no ano seguinte.
Atualmente, aos 41 anos, ela é mãe de um menino e trabalha em uma organização de apoio a mães solteiras. “Ainda estou no processo de reparar minha vida, mas estou mais avançada. É um trabalho contínuo”, afirmou, ressaltando que ainda enfrenta gatilhos, especialmente ao ouvir músicas de R. Kelly. “Algumas melodias me transportam de volta a momentos dolorosos, mas agora consigo atravessar essa dor sem raiva”, disse.
Reflexões finais
Refletindo sobre seu passado e sobre o ex-cantor, Landfair compartilhou: “Acredito que para ele, o poder era mais gratificante do que o próprio ato sexual. Quando penso em Robert, sinto raiva e tristeza, mas acima de tudo, espero que ele compreenda o impacto de suas ações”. Em resposta, R. Kelly, por meio de seu advogado, disse que a mulher foi injustamente exposta ao escrutínio público e expressou desejos de que ela encontre paz em sua vida.

