Desafios e Perspectivas do MDB nas Eleições
A última vez que o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) se uniu formalmente ao Partido dos Trabalhadores (PT) em uma eleição presidencial foi no apoio a Dilma Rousseff, que teve Michel Temer como seu vice. No entanto, essa aliança foi marcada por dissidências internas dentro do próprio MDB, que se manifestaram nas eleições de 2010 e 2014, quando facções do partido optaram por apoiar candidatos do PSDB, como José Serra e Aécio Neves, respectivamente. O impeachment de Dilma foi o ponto culminante do rompimento dessa parceria, que começou a ser retomada de maneira gradual, mas ainda com divisões acentuadas desde o segundo turno das eleições de 2022.
Para tentar conquistar o MDB novamente este ano, o governo federal está considerando oferecer ao partido a vice-presidência, atualmente ocupada por Geraldo Alckmin, do PSB. A definição oficial da posição do MDB, entretanto, será realizada durante a convenção nacional, onde parlamentares, presidentes de diretórios e representantes designados como delegados terão direito a voto. Os estados que obtiveram mais votos nas eleições anteriores terão uma representação maior e, portanto, mais influência nas decisões internas.
Palanques Estaduais e Estratégias Regionais
Neste ano, os membros do MDB poderão optar por apoiar Lula, o senador Flávio Bolsonaro (PL) ou um outro candidato, como Ratinho Júnior (PSD). Contudo, a possibilidade mais discutida internamente é que o partido opte pela neutralidade. “Nosso objetivo é focar na estruturação dos palanques estaduais, respeitando a estratégia eleitoral de cada diretório. Essa é uma característica histórica do MDB”, afirma Baleia Rossi, presidente nacional da sigla. Rossi ainda reforça que “o MDB não tem dono”.
Os diretórios que manifestam apoio a Lula estão majoritariamente localizados nas regiões Nordeste e Norte do Brasil. Um exemplo notável é o estado do Pará, governado por Helder Barbalho, cuja família ocupa posições relevantes, como a de Jader Filho, ministro das Cidades. Em entrevista ao Poder360, Barbalho destacou a necessidade de “coerência” no apoio ao petista, considerando as pastas de importância que o MDB controla no governo.
Em Alagoas, onde Renan Filho, ministro dos Transportes e possível candidato ao governo do estado, também se alinha ao apoio a Lula, o cenário político é favorável. O filho do senador Renan Calheiros é um dos nomes cogitados para integrar a chapa como vice de Lula, ao lado de Helder Barbalho.
De acordo com um interlocutor próximo ao Planalto, Lula admira a capacidade administrativa de Renan Filho, que dirige uma das pastas de maior entrega do governo. Porém, o clã Barbalho tem uma influência considerável, especialmente pela expressiva votação do partido no Pará nas eleições de 2022. A candidatura de Renan Filho em Alagoas é vista como essencial para fortalecer a reeleição do pai ao Senado e aumentar o número de deputados estaduais da sigla.
“A questão da vice-presidência foi mencionada por Lula, não por nós. Ele discutiu isso comigo no dia 17 de dezembro, na Granja do Torto”, revelou Renan Calheiros, salientando que será necessário um convite formal para que o MDB considere efetivamente essa possibilidade.
Resistência em São Paulo e Centro-Oeste
O MDB conta com o apoio de direções nos quatro estados onde o partido detém governo: Bahia, Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte, com vices emedebistas. Entretanto, mudanças regionais podem alterar essa dinâmica neste ano. São Paulo, por sua vez, desponta como um dos principais focos de resistência ao alinhamento com Lula. A ministra do Planejamento, Simone Tebet, deve mudar para o PSB para concorrer ao Senado no estado, enquanto o prefeito Ricardo Nunes, próximo ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), apoia a candidatura de Flávio Bolsonaro.
A rejeição ao alinhamento com o PT é notável também no Centro-Oeste. Em Goiás, o MDB está investindo no vice-governador Daniel Vilela para a sucessão de Ronaldo Caiado (PSD), que se posiciona como pré-candidato ao Planalto. Vilela afirma: “Não vejo a mínima possibilidade de aliança entre MDB e PT. Acredito que o MDB deve participar da construção de uma frente de centro-direita”.
No Sul do Brasil, a resistência é semelhante. No Rio Grande do Sul, o vice-governador Gabriel Souza está buscando apoio do governador Eduardo Leite (PSD) para sua própria candidatura ao Executivo. Em Minas Gerais, o partido já possui um pré-candidato, o ex-presidente da Câmara de Belo Horizonte, Gabriel Azevedo, enquanto também se considera o nome de Tadeu Leite, presidente da Assembleia Legislativa, como um palanque para Lula, em discussão entre alas do partido.
Além disso, é improvável que o MDB se alinhe ao PT no Rio de Janeiro. Washington Reis, ex-prefeito de Duque de Caxias e figura proeminente do partido, é um dos favoritos da família Bolsonaro. Hoje, no Supremo Tribunal Federal, será retomado o julgamento que pode reabilitá-lo eleitoralmente, uma vez que ele enfrenta inelegibilidade devido a uma condenação por crime ambiental.
Com exceção do apoio a Dilma em 2010 e 2014, a única eleição em que o MDB apoiou um candidato de fora de suas fileiras foi em 2002, quando indicou a vice de José Serra. Nas demais oportunidades, o partido optou por lançar seus próprios candidatos ou manter-se neutro nas disputas.

