Estratégia Política de Flávio Bolsonaro
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) está direcionando suas articulações políticas para a classe política, enquanto uma eventual aproximação com os militares fica em segundo plano. Fontes próximas ao parlamentar, ouvidas pelo Estadão/Broadcast, revelaram que não há atual diálogo entre Flávio e integrantes das Forças Armadas, o que demonstra uma sutil diferença em relação ao seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que, durante sua pré-campanha, já manifestava a intenção de contar com “generais cinco estrelas” em sua futura gestão.
Informações de aliados indicam que Flávio está priorizando alianças políticas e buscando conquistar a confiança do mercado financeiro, sem deixar de lado a política internacional. Essa estratégia reflete-se em sua equipe e nas agendas propostas. Embora aliados não descartem a possibilidade de futuras conversas com os militares, também não se pode afirmar que a nomeação de oficiais das Forças Armadas esteja nos planos imediatos de um eventual governo sob sua liderança.
Alianças e Apoios Estratégicos
Desde que anunciou sua intenção de concorrer à Presidência, em 5 de dezembro, Flávio tem trabalhado para atrair o apoio de partidos de centro, como os Republicanos, a União Brasil, o PSD e o PP, visando garantir palanques estaduais e recursos eleitorais, como tempo de televisão. O senador já se reuniu com figuras importantes, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e os presidentes do PP, senador Ciro Nogueira (PI), e da União Brasil, Antônio Rueda.
Entretanto, o cenário político ainda é nebuloso, com os partidos aguardando definições mais concretas. O PSD, liderado por Gilberto Kassab, articula um nome alternativo para a disputa. Em busca de fortalecer suas alianças, Flávio nomeou o senador Rogério Marinho (PL-RN) como coordenador político, que por sua vez retirou sua candidatura ao governo do Rio Grande do Norte.
Relacionamento com o Mercado Financeiro
Além disso, Flávio está empenhado em reverter a desconfiança do mercado financeiro em relação ao seu nome. Ele encarregou o empresário Filipe Sabará de estabelecer conexões com a Faria Lima e a classe empresarial. O entorno econômico do senador inclui nomes como o ex-ministro Adolfo Sachsida e o ex-presidente do BNDES Gustavo Montezano, que podem contribuir para a construção de uma imagem mais favorável nos círculos financeiros.
Outro aspecto importante da estratégia de Flávio é sua atuação na política internacional. Recentemente, ele viajou para Israel e Bahrein, onde se encontrou com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, além de outros representantes da direita conservadora. Ele também está preparando visitas ao México, Argentina e outros países latino-americanos, numa tentativa de fortalecer laços que podem ser vantajosos em sua campanha.
Diferenças entre Flávio e Jair Bolsonaro
Aliados destacam as diferenças entre os perfis de Flávio e Jair Bolsonaro. Enquanto o pai foi integrante do Exército até 1988, quando se aposentou e entrou na política como vereador do Rio de Janeiro, Flávio nunca fez parte das Forças Armadas e optou por construir sua carreira na política e no setor empresarial. Formado em Direito, ele assumiu seu primeiro mandato como deputado estadual no Rio aos 21 anos, em 2003, período em que Jair já estava imerso na política há 15 anos.
Durante os 23 anos de sua trajetória política, Flávio conviveu com militares durante a gestão do pai, que ficou marcada por uma rixa entre os núcleos familiar e militar. O General da reserva Carlos Alberto dos Santos Cruz, que foi ministro da Secretaria de Governo na administração Bolsonaro, declarou desconhecer contatos de Flávio com militares ativos e enfatizou que a participação das Forças Armadas no governo anterior foi negativa. Para ele, uma eventual inclusão de militares no governo de Flávio seria uma decisão pessoal dos indivíduos escolhidos e não uma mobilização institucional.
“Essas decisões são muito pessoais. Não vejo isso como um interesse de classe ou institucional. O que aconteceu durante o governo anterior foi uma experiência negativa. A participação de militares na gestão do pai dele não trouxe benefícios. Se alguém for convidado, a decisão de aceitar ou não é uma escolha pessoal”, afirmou Santos Cruz.
Ele ainda expressou a intenção de retornar à vida política e não descartou uma candidatura em 2026, defendendo a participação de militares na política, desde que não se envolvam na chamada “politicagem”. “Não vejo problema. A candidatura de militares ou de pessoas de carreiras de Estado não é politicagem, é parte da política. O que precisamos evitar é a politicagem invadindo as instituições”, concluiu Santos Cruz. Essas considerações surgem em um contexto em que o ex-presidente e militares de alta patente foram condenados por tentativas de golpe.

