Greve nas Clínicas da Família: Motivos e Implicações
Médicos e enfermeiros que atuam nas Clínicas da Família da Prefeitura do Rio de Janeiro decidiram entrar em greve a partir de 2 de fevereiro, com a paralisação programada para acontecer até o dia 11 do mesmo mês. A decisão foi tomada em assembleias realizadas na última quinta-feira, 22, organizadas pelo Sindicato dos Médicos do Rio de Janeiro (Sinmed-RJ) e pelo Sindicato dos Enfermeiros do Rio de Janeiro (Sindenf-RJ). Essa mobilização impacta diretamente a Atenção Primária à Saúde (APS), a porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS), e vem à tona em um contexto de descumprimento de acordos estabelecidos pela gestão do prefeito Eduardo Paes e pelo secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz.
As entidades de classe denunciam a precarização das condições de trabalho, um problema que vem se agravando nos últimos anos. Segundo os sindicatos, um acordo firmado após mobilizações anteriores previa o pagamento da chamada Variável 3, um adicional de desempenho que está atrasado desde 2023. Além disso, uma recomposição salarial parcial de 5% também não foi cumprida. A Prefeitura e as organizações sociais responsáveis pela gestão das unidades de saúde não honraram os compromissos assumidos.
Atrasos e Falhas no Atendimento
Entre as diversas queixas apresentadas pelos profissionais, estão as falhas recorrentes no abastecimento de insumos essenciais, equipes incompletas e a falta de medidas adequadas para garantir a segurança nas unidades de saúde, muitas delas situadas em áreas de conflito armado. Essa situação compromete a qualidade do atendimento prestado à população que depende dos serviços do SUS.
Durante o período de greve, as Clínicas da Família funcionarão parcialmente, operando com apenas 50% das equipes em atividade assistencial. Serão mantidos apenas atendimentos prioritários, como pré-natal, puericultura, acompanhamento de tuberculose e hanseníase, tratamento oncológico e casos de maior gravidade. Consultas eletivas, atividades coletivas, visitas domiciliares e procedimentos não urgentes estarão suspensos, o que impactará diretamente dezenas de unidades da rede, que conta com mais de 200 Clínicas da Família na cidade.
Desafios da Atenção Primária
Essas unidades realizam milhares de atendimentos diariamente e são essenciais para grande parte da população que depende do SUS na capital fluminense. Além das reivindicações salariais, médicos e enfermeiros denunciam a precarização das relações de trabalho, uma situação que se agravou com o modelo de gestão por organizações sociais. Segundo os sindicatos, equipes têm atendido mais de 4 mil pacientes, quando a Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) recomenda um máximo de 2,5 mil pessoas por equipe.
Os profissionais exigem da Prefeitura um plano estruturante para a Atenção Primária, que inclua a redução da carga populacional por equipe, recomposição das equipes multiprofissionais, regularização do fornecimento de medicamentos e implementação de protocolos eficazes para lidar com episódios de violência nas unidades de saúde.
Ato de Mobilização e Denúncias de Assédio
No dia 2 de fevereiro, às 9h, médicos e enfermeiros realizarão um ato conjunto em frente ao Super Centro Carioca de Especialidades, localizado em Benfica, na Zona Norte do Rio. O objetivo desse protesto é pressionar a gestão municipal a cumprir os acordos firmados e adotar medidas concretas para enfrentar a crise na Atenção Primária.
Além disso, os sindicatos relatam que, desde o anúncio da mobilização, profissionais têm sofrido assédio, ameaças e até demissões, situações que estão sendo tratadas judicialmente. Uma nova assembleia dos médicos está agendada para o dia 11 de fevereiro, quando a categoria irá avaliar as eventuais respostas da Prefeitura e discutir os próximos passos do movimento.

