Desafios Enfrentados na Educação Brasileira
Megg Rayara Gomes de Oliveira se destaca como um marco na educação brasileira. Reconhecida como a primeira travesti negra a obter o título de Doutora em Educação no Brasil, sua história simboliza a luta contra diversas formas de discriminação. Formada pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), Megg consolidou sua pesquisa em torno de sua vivência e das dificuldades enfrentadas por pessoas negras e LGBTQIA+ nas escolas.
No decorrer de sua pesquisa, que abrangeu quatro anos, ela analisou como quatro professores negros e homossexuais encontraram formas de resistência diante de práticas opressoras em escolas públicas no Paraná e no Rio de Janeiro, abrangendo tanto o ensino fundamental quanto o médio. As contribuições de Megg Rayara são fundamentais para renovar o debate educacional e promover trajetórias mais inclusivas para as novas gerações.
Entrevista com Megg Rayara: Racismo na Escola
Durante uma conversa reveladora, Megg compartilhou suas perspectivas sobre o racismo no ambiente escolar e a naturalização do racismo institucional. Ela destacou a dificuldade de denunciar e criminalizar os responsáveis por atos racistas, mencionando o que ela chama de “Pacto da Branquitude”, que permeia o sistema de justiça no Brasil. Segundo Megg, o racismo brasileiro é insidioso, já que muitas vezes permanece invisível até para suas vítimas.
“Identificar o racismo é uma das maiores dificuldades”, observou. Ela enfatizou que práticas discriminatórias estão presentes nas narrativas escolares, desde a escolha dos conteúdos até o modo como são abordados em sala de aula. Isso revela uma institucionalização do preconceito, onde as contribuições africanas são frequentemente desvalorizadas em comparação às europeias.
O Silêncio e a Violência do Racismo
Megg também abordou que, em muitos casos, as manifestações mais explícitas do racismo ocorrem em forma de piadas ou brincadeiras, tornando a denúncia uma tarefa complexa. Essa forma de racismo, segundo a professora, impede a discussão e perpetua a humilhação. Ela ainda ressaltou a complexidade do “Pacto da Branquitude”, que resulta em um sistema de justiça que muitas vezes desqualifica as vítimas e suas queixas.
A situação se agrava com a baixa quantidade de pessoas denunciadas e julgadas por crimes raciais, o que reflete a ineficácia do sistema na punição de ações racistas. Megg defende uma educação antirracista que não só promova a conscientização, mas também implemente punições adequadas para práticas racistas.
Racismo Institucional e sua Naturalização
A professora destacou ainda que órgãos governamentais, como o Ministério Público e a Defensoria Pública, muitas vezes normalizam o racismo institucional. Ela, que atua na área educacional, constata frequentemente a presença de práticas racistas dentro dessas instituições, que perpetuam uma visão distorcida da realidade. O fato de muitos profissionais dessas áreas não terem acesso adequado a discussões sobre relações étnico-raciais contribui para a manutenção de uma cultura que marginaliza a população negra.
“A ausência de pessoas negras em posições de decisão confirma a suposta superioridade racial branca”, afirmou Megg. Essa visão é reforçada em processos seletivos para o serviço público, onde tanto os conteúdos das provas quanto as bancas avaliadoras tendem a privilegiar a branquitude.
Impactos do Racismo na Formação de Jovens
Os efeitos do racismo nas vítimas, especialmente crianças e adolescentes, são profundos. Megg explicou que a violência racial impacta seriamente a autoestima e a forma como esses jovens se veem. Muitas vezes, eles enfrentam discriminação através de comentários e apelidos depreciativos relacionados à cor da pele ou características físicas.
Ela ainda mencionou como a falta de apoio e carinho por parte dos educadores pode acentuar essas desigualdades, levando os jovens a negarem sua identidade racial em um esforço para escapar do racismo. A pesquisadora Waléria Menezes, citada por Megg, ressalta que a educação pode induzir os jovens a acreditarem que suas desvantagens são pessoais, em vez de reconhecerem os fatores externos que motivam essa discriminação.
Desconstruindo Estruturas Racistas
Como resultado, a escola e outros ambientes educacionais transmitem valores que moldam identidades, levando os jovens a se sentirem inseguros e inferiorizados devido à sua cor de pele. O racismo, portanto, não apenas perpetua privilégios, mas também se adapta constantemente, garantindo sua continuidade e eficácia. Megg conclui que, em última análise, o racismo está sempre se renovando, enfrentando os desafios do dia a dia com “roupa nova”.

