Desmistificando a Força de Vontade
A ideia de que a obesidade está estritamente ligada à força de vontade é amplamente divulgada, mas será que essa visão é válida? O debate ganha força, especialmente após um estudo da The Lancet, que revelou que 80% dos entrevistados acreditam que a obesidade poderia ser evitada apenas com escolhas de estilo de vida. Contudo, essa crença ignora aspectos fundamentais que influenciam o peso corporal, segundo a nutricionista Bini Suresh.
Com 20 anos de experiência atendendo pacientes com sobrepeso, Suresh destaca que muitos de seus clientes são motivados e informados, mas ainda assim enfrentam dificuldades para controlar o peso. A médica Kim Boyd, diretora médica do Vigilantes do Peso, também ressalta que a questão da obesidade é muito mais complexa do que simplesmente comer menos e se exercitar mais. Embora essas possam ser ações importantes, a realidade é que existem diversos fatores interligados que afetam a saúde e o peso.
A crescente obesidade no Reino Unido, onde mais de um quarto da população adulta é considerada obesa, é um reflexo de um cenário complicado. Recentemente, o governo britânico implementou uma proibição de publicidade de alimentos não saudáveis na televisão antes das 21h e em plataformas online, mas muitos especialistas duvidam que essa medida sofra impactos significativos para resolver o problema.
Fatores Genéticos e Ambientais
De acordo com a professora Sadaf Farooqi, endocrinologista da Universidade de Cambridge, a genética desempenha um papel crucial na quantidade de peso que uma pessoa ganha. Muitos genes influenciam a fome, a saciedade e o metabolismo. Um dos genes mais notáveis, o MC4R, afeta a sensação de saciedade e está presente em cerca de 20% da população mundial. Além disso, outros genes influenciam a rapidez com que queimamos calorias.
Farooqi aponta que existem milhares de genes que impactam o peso, dos quais apenas uma fração é conhecida detalhadamente. A relevância dos novos medicamentos para perda de peso é que eles podem ajudar a abordar essas questões biológicas. No entanto, a complexidade do fenômeno da obesidade não se limita à genética. O ambiente alimentar e o estilo de vida também têm um papel significativo.
O cirurgião bariátrico Andrew Jenkinson traz à tona a teoria do set point, que sugere que cada indivíduo tem um peso corporal que o cérebro considera ideal. Mudanças no peso podem desencadear respostas biológicas que dificultam a manutenção da perda de peso, como o aumento do apetite e a redução do metabolismo. Isso explica o fenômeno do efeito sanfona, onde as pessoas que tentam emagrecer frequentemente recuperam o peso perdido devido a essas reações químicas.
A Influência do Ambiente
O aumento da obesidade não pode ser explicado apenas por fatores genéticos. Fatores como a acessibilidade a alimentos ultraprocessados e a publicidade agressiva de junk food criaram um ambiente obesogênico. Alice Wiseman, diretora de saúde pública, observa que a visibilidade da comida em nosso cotidiano influencia nossas escolhas. O crescimento do fast food e a restrição ao acesso a opções mais saudáveis complicam ainda mais a situação.
De acordo com um relatório da Health Foundation, mais de 60% dos adultos no Reino Unido estão com sobrepeso ou obesidade. As escolhas alimentares são frequentemente limitadas por questões econômicas, já que alimentos saudáveis costumam ser mais caros. Isso leva à necessidade de um olhar crítico sobre a responsabilidade individual na questão da obesidade. Enquanto alguns defendem que a força de vontade é vital, outros argumentam que as circunstâncias externas desempenham um papel ainda mais significativo.
O Papel da Força de Vontade
O debate sobre a força de vontade é complexo. Keith Frayn, autor de ‘A Calorie is a Calorie’, adverte que desconsiderar a força de vontade pode levar à aceitação de pesos não saudáveis. No entanto, muitos concordam que a força de vontade sozinha não é suficiente, e a nutrição estruturada e apoio psicológico são fundamentais para atingir objetivos de saúde a longo prazo.
Por fim, a psicóloga Eleanor Bryant destaca que a força de vontade pode ser fortalecida, dependendo da perspectiva que se tem sobre ela. A alimentação flexível, em que a pessoa não se penaliza por pequenos deslizes, pode levar a um comportamento alimentar mais saudável a longo prazo.
Em resumo, o entendimento da obesidade e da perda de peso deve ser amplo, considerando tanto fatores biológicos quanto ambientais. A força de vontade é apenas um componente em uma equação muito mais complexa, e a promoção de um ambiente de suporte e educação pode ser a chave para um futuro mais saudável.

