Desafios do jornalismo esportivo feminino
Nos últimos tempos, diversas situações de assédio enfrentadas por mulheres que atuam no jornalismo esportivo têm atraído atenção. Casos de agressões e intimidações foram relatados por profissionais durante a cobertura de eventos, revelando um cenário preocupante para aquelas que buscam seu espaço no meio. Duda Dalponte, da TV Globo, Nani Chemello, da Rádio Inferno, e Aline Gomes, da CazéTV, dividiram suas experiências com O GLOBO, destacando os desafios enfrentados como mulheres em um universo predominantemente masculino.
A trajetória de Duda Dalponte, por exemplo, é marcada por episódios de assédio durante sua cobertura de eventos esportivos. Ela recorda um momento marcante durante o aeroFla, uma festa da torcida que acompanhava o time até o aeroporto, quando sofreu puxões de cabelo enquanto fazia uma transmissão ao vivo. A repórter, que sempre sonhou em trabalhar com televisão, revela que inicialmente acreditou que as agressões foram acidentais, mas logo percebeu que eram intencionais. Em meio à confusão, a solidariedade do público foi fundamental, mesmo diante da falta de ação dos seguranças presentes.
O impacto emocional foi grande para Duda, que viu sua família preocupada com a situação. Apesar das dificuldades, ela conta que o dia a dia na profissão, em geral, não é tão desafiador, embora ainda enfrente situações constrangedoras. “Temos que estar muito mais preparadas do que qualquer homem”, aponta Duda, ao enfatizar a necessidade de continuar lutando por um espaço respeitado no jornalismo esportivo.
Repercussões e desafios contínuos
Outro relato marcante é de Nani Chemello, que também enfrentou momentos difíceis enquanto reportava sobre o Internacional. Após um episódio de intimidação por parte de um jogador, Nani se viu lidando com agressões nas redes sociais e sentiu a necessidade de restringir suas interações na internet para preservar sua saúde mental. “Aquela semana foi bem difícil… Chorei para me acalmar”, compartilha. Nani, que tem uma ligação forte com o clube, se sentiu desafiada a continuar sua jornada no jornalismo mesmo diante de experiências que a fazem sentir que o ambiente não a quer.
Ela destaca que, frequentemente, as mulheres enfrentam desdém e desrespeito, tanto em situações veladas quanto escancaradas. Nani relata um episódio em que um colega de profissão a ignorou em um ambiente de trabalho e menciona a audácia de um jornalista que tentou justificar um comportamento inadequado. Decidida a não se deixar abalar, Nani revela seu apoio emocional vindo de amigos e colegas, reforçando a importância de criar redes de solidariedade dentro da profissão.
Superando desafios e conquistando espaço
Aline Gomes, por sua vez, traz uma perspectiva de resiliência e superação. Embora tenha começado sua carreira como profissional da área de TI, sua paixão pelo futebol a levou a criar conteúdos para a CazéTV. Durante uma cobertura, ela viveu uma situação de insegurança ao ser atacada por um torcedor. Aline conta que, após o incidente, recebeu ajuda de outros torcedores, o que a fez perceber que o comportamento agressivo de um indivíduo não representa a torcida como um todo.
“Nunca havia tido uma experiência ruim como mulher nesse meio. Mas, no geral, sempre fui bem tratada”, afirma Aline. Contudo, a repórter destaca que as redes sociais apresentam um ambiente hostil, onde críticas e ofensas são comuns. Apesar disso, ela se recusa a deixar que isso a impeça de seguir sua paixão. “Vou continuar falando de futebol, porque isso é meu sonho”, declara, demonstrando determinação e coragem.
Esses relatos revelam uma realidade complexa, onde mulheres no jornalismo esportivo enfrentam desafios que vão além das reportagens e coberturas. O assédio e a falta de respeito são questões que precisam ser abordadas com urgência, e as experiências de Duda, Nani e Aline trazem à tona a importância de se lutar por um espaço seguro e respeitoso no ambiente esportivo. O que se espera é que, com o passar do tempo, essa luta se transforme em conquistas e que um dia não precisemos mais discutir sobre o que deveria ser uma prática profissional comum.

