Descobertas Surpreendentes Sobre a Vitamina A e o Câncer
Recentemente, dois estudos científicos trouxeram à tona informações intrigantes sobre a vitamina A e seu papel complexo na saúde humana, especialmente na luta contra o câncer. Os artigos publicados na Nature Immunology e na iScience esclarecem a controvérsia sobre os efeitos dos retinoides — metabólitos da vitamina A — e mostram como esses compostos podem impactar as respostas imunológicas. Esses novos achados não apenas oferecem uma nova perspectiva sobre a vitamina A, mas também abriram caminho para o desenvolvimento de medicamentos experimentais que visam bloquear as sinalizações celulares induzidas pelo ácido retinoico.
O primeiro estudo, liderado pelo pesquisador Yibin Kang e pela doutoranda Cao Fang, demonstrou que o ácido retinoico, produzido por células dendríticas — que são cruciais para ativar o sistema imunológico — pode reprogramar essas células para tolerar os tumores. Isso resulta em uma diminuição significativa na eficácia das vacinas que utilizam células dendríticas como forma de imunoterapia, uma estratégia que visa “ensinar” o corpo a reconhecer e combater o câncer.
Avanços em Terapias Imunológicas
A equipe de pesquisa também desenvolveu um novo composto, chamado KyA33, que interrompe a produção de ácido retinoico tanto em células tumorais quanto nas próprias células dendríticas. Em testes com modelos animais, o uso do KyA33 melhorou a eficácia das vacinas e demonstrou potencial para atuar como uma forma independente de imunoterapia. Essa descoberta é um passo significativo na busca por tratamentos mais eficazes contra o câncer.
Outra pesquisa, conduzida por Mark Esposito, um ex-aluno do laboratório de Kang, focou em criar medicamentos que possam inibir completamente a produção do ácido retinoico e desativar sua sinalização. Apesar de mais de um século de estudos sobre retinoides, tentativas anteriores de bloquear essa via de forma segura não obtiveram sucesso. A nova abordagem utilizou modelagem computacional e triagem em larga escala de compostos químicos, resultando na esperança de que o KyA33 possa ser uma solução viável.
O Papel das Células Dendríticas
As células dendríticas desempenham uma função essencial na defesa do organismo, apresentando fragmentos de proteínas anômalas aos linfócitos T, que são os soldados do sistema imunológico encarregados de eliminar células enfermas. As vacinas baseadas em células dendríticas são elaboradas a partir de células imaturas do próprio paciente, tratadas em laboratório com antígenos do tumor. Contudo, mesmo com os avanços na identificação de antígenos, os resultados clínicos têm mostrado limitações significativas.
Fang, uma das autoras do estudo, explicou que em condições comuns de produção de vacinas, as células dendríticas começam a expressar a enzima ALDH1A2, resultando em altos níveis de ácido retinoico. Essa sinalização no núcleo celular suprime a maturação das células dendríticas, comprometendo sua habilidade de desencadear uma resposta imunológica eficaz contra tumores.
O Paradoxo da Vitamina A
As descobertas ajudam a elucidar o que muitos chamam de “paradoxo da vitamina A”. Em condições laboratoriais, o ácido retinoico tem demonstrado inibir o crescimento de células cancerosas, levando à ideia de que a vitamina A poderia ter propriedades anticâncer. No entanto, grandes estudos clínicos mostraram que ingestões elevadas dessa vitamina estão associadas a um aumento no risco de câncer, doenças cardiovasculares e mortalidade. Tumores que apresentam altos níveis da enzima ALDH1A também têm um prognóstico pior.
“O que nosso estudo revela é a base mecânica desse paradoxo”, afirmou Esposito. “As células tumorais usam a ALDH1A3 para gerar ácido retinoico, mas perdem a capacidade de responder à sinalização dos retinoides, conseguindo assim escapar dos seus efeitos antiproliferativos.”
Um Novo Caminho para o Tratamento do Câncer
O estudo revelou que o ácido retinoico atua principalmente suprimindo a resposta imunológica no microambiente tumoral, incluindo a atividade das células T que normalmente atacariam os cânceres. Nos testes realizados com animais, os inibidores da ALDH1A3 mostraram-se eficazes em estimular respostas imunes robustas contra os tumores, o que reforça o potencial dessa nova abordagem terapêutica.
“Estamos abrindo caminhos para uma nova forma de tratamento contra o câncer ao desenvolver fármacos que inibem de maneira segura e específica a sinalização nuclear da via do ácido retinoico”, destacou Kang. Ele e Esposito fundaram a empresa de biotecnologia Kayothera, com a ambição de levar esses inibidores para ensaios clínicos, visando desenvolver novas terapias para diversas doenças impactadas pelo ácido retinoico, como câncer, diabetes e doenças cardiovasculares.

