Interrupções Causadas pela Violência no Transporte Escolar
Entre janeiro de 2023 e julho de 2025, o transporte público no Rio de Janeiro enfrentou interrupções severas devido à violência, impactando diretamente o deslocamento de praticamente 190 mil estudantes da rede municipal. Essa estatística faz parte do estudo intitulado “Percursos interrompidos: efeitos da violência armada na mobilidade de crianças e adolescentes no Rio de Janeiro”, divulgado na última quinta-feira (26 de março de 2026) por instituições como a Unicef, o Instituto Fogo Cruzado e o Grupo de Estudos de Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense.
A pesquisa revelou um total de 2.228 paralisações nos transportes utilizados por esses alunos. Destes eventos, metade ocorreu durante os dias letivos, no horário escolar, entre 6h30 e 18h30, dificultando o acesso das crianças e adolescentes às escolas e a volta para casa.
Os dados indicam que a maior parte das interrupções foi ocasionada por barricadas em 32,4% dos casos. Outras causas incluem ações ou operações policiais (22,7%), manifestações (12,9%), ações criminosas na localidade (9,6%) e registros de tiros ou tiroteios (7,2%).
Duração das Interrupções e Impacto na Educação
Em média, cada uma das 2.228 interrupções teve duração de sete horas. Curiosamente, um quarto dessas paralisações se estendeu por mais de 11 horas. Quando as interrupções ocorreram durante o horário escolar, a média de duração subiu para 8 horas e 13 minutos, e mais da metade dessas ocorrências durou mais de quatro horas.
Flavia Antunes, chefe do escritório do Unicef no Rio de Janeiro, comentou sobre o impacto do estudo, destacando dois tipos de percursos interrompidos: o físico, que diz respeito ao trajeto para a escola, e o percurso de vida das crianças. “O impedimento do acesso a um direito fundamental, como a educação, pode ter um profundo impacto na trajetória de vida desses jovens”, afirmou.
Bairros Mais Afetados e Classificação de Risco
O bairro da Penha, na zona norte, foi o mais afetado, registrando 633 interrupções durante o período analisado, o que equivale a 176 dias sem transporte público. Bangu, na zona oeste, contabilizou 175 eventos, resultando em 45 dias de interrupção. Já Jacarepaguá, na zona sudoeste, teve 161 ocorrências, correspondendo a 128 dias sem circulação.
Focando no período letivo e no horário escolar, Penha e Jacarepaguá somaram 296 e 108 registros, respectivamente, totalizando cerca de 88 dias letivos de paralisação. Em contrapartida, 70 dos 166 bairros do município não apresentaram qualquer interrupção durante esse mesmo período.
Das 4.008 unidades escolares ativas na rede municipal do Rio de Janeiro em 2024, aproximadamente 95% enfrentaram ao menos uma interrupção no transporte público em suas proximidades durante a análise. O relatório categoriza as escolas em diferentes níveis de risco, levando em consideração a frequência e a intensidade dos eventos registrados. Entre as mais de quatro mil unidades, 120 foram classificadas como de risco alto ou muito alto, representando 2,9% do total.
A zona norte do Rio concentra a maioria das escolas com alto risco, totalizando 71 das 120 unidades, ou seja, 59,2%. A zona oeste abriga 48 unidades, correspondendo a 40% das escolas nesta categoria. Em termos numéricos, cerca de 323.359 crianças e adolescentes estão matriculados em instituições que enfrentam risco moderado, alto ou muito alto de interrupções na mobilidade, representando um quarto do total de matrículas da rede pública de ensino.

