Mobilização e Inovação no Combate à Pandemia
No dia 8 de dezembro de 2020, a britânica Margaret Keenan fez história ao se tornar a primeira pessoa vacinada contra a covid-19 fora de testes clínicos. Essa rápida implementação de vacinas, muitas vezes questionada por críticos e disseminadores de desinformação, na verdade reflete a mobilização global para controlar a pandemia e é um testemunho do conhecimento científico acumulado. A opinião é de Rosane Cuber, diretora do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fundação Oswaldo Cruz (Bio-Manguinhos/Fiocruz), que desempenhou papel crucial na introdução da vacina no Brasil.
Rosane explica que as vacinas de RNA e as de vetor viral já eram abordagens estabelecidas e que foram adaptadas e melhoradas ao longo do tempo. “Essas plataformas não surgiram do nada. Existe um vasto acúmulo de pesquisa e conhecimento que possibilitou o rápido desenvolvimento de novas vacinas”, afirma. Durante a pandemia, Rosane atuou como vice-diretora de qualidade em Bio-Manguinhos, a unidade da Fiocruz responsável por vacinas, biofármacos e kits diagnósticos.
O instituto trouxe a vacina Oxford/Astrazeneca para o Brasil, entregando, ao todo, 190 milhões de doses ao Programa Nacional de Imunizações. O trabalho começou assim que os primeiros casos de covid-19 foram reportados globalmente. Em março de 2020, Bio-Manguinhos iniciou a produção de testes para diagnóstico do vírus, enquanto um grupo interno começou a prospectar vacinas em desenvolvimento para identificar uma que pudesse ser adquirida por meio de transferência de tecnologia.
Desenvolvimentos e Desafios na Transferência de Tecnologia
As negociações com a Universidade de Oxford e a farmacêutica Astrazeneca tiveram início em agosto daquele ano, exigindo adaptações significativas no instituto, incluindo a criação de um arcabouço jurídico para permitir a transferência de tecnologia de um produto ainda em desenvolvimento. “Foi possível porque interrompemos todas as outras atividades do instituto, focando todos os grupos em um único objetivo: trazer a vacina. Isso incluiu muitos treinamentos diários”, destaca Rosane.
Além disso, a sociedade civil também se mobilizou intensamente para facilitar a aquisição de equipamentos e insumos necessários. Em janeiro de 2021, o Brasil recebeu a primeira remessa da vacina Oxford/Astrazeneca, com 2 milhões de doses prontas, logo após a autorização de uso emergencial pela Anvisa. As aplicações começaram em 23 de janeiro do mesmo ano.
Com o passar dos meses, a estratégia mudou: enquanto o instituto continuou a importar o ingrediente farmacêutico ativo (IFA), passou a ser responsável pelo envaze, rotulagem e controle de qualidade. Desde fevereiro de 2022, a vacina 100% brasileira começou a ser disponibilizada à população.
O Legado da Vacinação e Perspectivas Futuras
Com a interrupção da produção das vacinas no fim da pandemia, outras vacinas mais modernas passaram a ser adquiridas pelo Ministério da Saúde. Contudo, o imunizante da Fiocruz foi o mais aplicado no Brasil em 2021, com estimativas apontando que cerca de 300 mil vidas foram salvas apenas no primeiro ano de imunização. Rosane destaca que o legado da vacinação vai além dos números: “O fato de termos conseguido controlar a covid-19 no Brasil já seria um legado significativo. Porém, esse processo nos deixou prontos para produzir outros produtos essenciais para o SUS”.
Entre as heranças diretas desse período, destaca-se a pesquisa para desenvolver uma terapia avançada para a atrofia muscular espinhal (AME), uma doença rara e degenerativa. Os tratamentos atualmente disponíveis podem custar até R$ 7 milhões. A terapia em desenvolvimento no Bio-Manguinhos utiliza uma plataforma de vetor viral, similar à da vacina Oxford/Astrazeneca, e já recebeu autorização da Anvisa para estudos clínicos, que devem ter início ainda este ano.
Novas Frentes de Pesquisa e Inovação
Além disso, Bio-Manguinhos dará início, neste ano, aos testes em humanos de uma vacina contra a covid-19 utilizando a tecnologia de RNA mensageiro, a mesma aplicada na vacina desenvolvida pela Pfizer. Rosane esclarece que essa plataforma já estava em estudos para o tratamento de câncer, mas a pandemia ampliou as possibilidades de pesquisa nesta área. “O coronavírus está entre nós para ficar. Embora não seja mais uma pandemia, ainda temos surtos. Produzindo vacinas nacionalmente, reduzimos custos e garantimos a soberania do país”, defende.
O desempenho de Bio-Manguinhos durante a crise sanitária também elevou sua projeção internacional, tornando-se um dos seis laboratórios escolhidos pela Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias como centro de produção. Isso significa que, em caso de uma nova crise, o laboratório brasileiro será um dos primeiros a ser acionado para desenvolver vacinas para a América Latina. Além disso, a Organização Mundial da Saúde reconheceu o instituto como hub regional para o desenvolvimento de produtos com RNA mensageiro.
Rosane Cuber enfatiza que o foco do laboratório não é o lucro, mas sim o benefício à sociedade: “Fazemos entregas para a população brasileira, priorizando a saúde e bem-estar de todos.”

