O Crescimento do Turismo na Rocinha
No final de dezembro, a famosa cantora espanhola Rosalía encantou os moradores da Rocinha, na Zona Sul do Rio de Janeiro, durante uma visita que durou cerca de sete horas. Por conta do seu reconhecimento, o guia Filipe Diniz, de 21 anos, decidiu mudar o roteiro do grupo e apresentar a laje de sua família, localizada na Estrada da Gávea, que oferece uma vista privilegiada para a localidade da Cachopa. O impacto da presença da artista foi instantâneo, fazendo do espaço o novo ponto turístico conhecido como Laje da Rosalía. Ali, a cantora se divertiu em uma festa improvisada, onde até arriscou alguns passos de funk e compartilhou churrasco com os convidados.
A Rocinha, a maior favela do Brasil, segundo dados do IBGE, não só atraiu a atenção de Rosalía como também entrou no roteiro turístico graças a diversas inovações. O uso de drones para filmagens, visitas a lajes com opções de comida e bebida, e o aplicativo Na Favela Turismo estão mudando a forma como visitantes conhecem a comunidade. Além disso, a cerveja artesanal Sobe Aê!, produzida em Nova Friburgo, se tornou mais uma atração, sendo comercializada desde dezembro na Rocinha e no Morro do Vidigal.
O Impacto do Aplicativo Na Favela Turismo
O aplicativo Na Favela Turismo, que cadastrou impressionantes 40 mil visitantes em janeiro, representa um aumento significativo em relação aos 7.500 registros no mesmo mês de 2025, quando foi lançado. Renan Monteiro, idealizador do aplicativo, detalhou que os visitantes realizam check-ins e são acompanhados online durante passeios a pé, de moto ou por trilhas. Existem pontos de apoio ao longo do caminho, que garantem segurança, permitindo que os turistas utilizem banheiros ou busquem abrigo em caso de chuva ou eventual situação de risco.
“Após o lançamento do aplicativo, a segurança passou a ser uma prioridade. Todos os roteiros são validados com a associação de moradores, garantindo que o turismo respeite a comunidade”, destaca Renan. “Contamos com cerca de 3 mil guias registrados, sendo 280 guias locais que realizam passeios a pé, e 482 guias para mototours.”
Os Números do Turismo na Rocinha
Os dados do Observatório do Turismo Carioca, que utiliza geolocalização via operadoras de celular, confirmam o aumento do fluxo turístico na Rocinha. Em janeiro deste ano, foram contabilizados 41.852 turistas, uma alta de 37% em comparação ao mesmo mês de 2025. Ao comparar com janeiro de 2024, o crescimento chega a impressionantes 97%. A comunidade agora ocupa a 16ª posição entre os destinos mais visitados do Rio de Janeiro, com um aumento de 34% de turistas nacionais e internacionais, totalizando 292 mil no último ano. O maior crescimento foi observado entre os visitantes estrangeiros, que tiveram um aumento de 93%, chegando a quase 88 mil em 2025.
Experiências Imersivas e Seguras
Os roteiros a pé geralmente têm início na Gávea, onde veículos deixam os turistas para que eles continuem a jornada de moto até os restaurantes da parte alta da comunidade, como o Mirante da Rocinha e o Novo Visual. Durante o trajeto, há várias paradas para garantir conforto e segurança aos visitantes. O cenário atual é repleto de grupos de turistas, muitos com camisetas do Brasil, que exploram a favela e suas particularidades, incluindo lojas de souvenirs e apresentações de capoeira. Os guias são facilmente identificáveis por crachás e camisetas, e a demanda por profissionais locais tem levado muitos a buscarem cursos para aprimorar suas habilidades e idiomas.
Filipe Diniz, que teve a oportunidade de conversar com Rosalía em inglês e espanhol, ressalta a importância do turismo. “Ela ficou surpresa com a tranquilidade da favela e perguntou se era errado fazer turismo aqui. Expliquei a ela que a Rocinha é um lugar acolhedor”, relata o guia. O encontro com a artista se deu através de uma agência que organizou o passeio, permitindo que a experiência fosse não apenas divertida, mas também enriquecedora.
A Transformação do Comércio Local
A Rua 1, anteriormente ponto de tráfico, agora é uma passarela movimentada de turistas que buscam as lajes com vistas deslumbrantes da favela. A Laje Porta do Céu se destaca como a preferida, atraindo visitantes que aguardam sua vez para capturar fotos incríveis com a ajuda de drones. Os preços dos tours variam de R$ 107 a R$ 450, dependendo da duração e exclusividade do passeio, e as vendas de experiências são facilitadas por plataformas como Viator e GetYourGuide.
A melhoria na infraestrutura local também é evidente, com muitos estabelecimentos de alimentação se adaptando para atender a nova clientela. João Bosco de Castro, presidente da União Pró Melhoramentos da Rocinha, informa que entre 60 a 80 dos cerca de 400 restaurantes e lanchonetes passaram ou estão passando por reformas. O aluguel por temporada também tem crescido, com diárias variando de R$ 120 a R$ 300, dependendo da localização e estrutura do imóvel.
O Empoderamento dos Moradores
Cláudia de Oliveira, de 54 anos, é um exemplo de como o turismo tem mudado vidas na comunidade. Ao largar o trabalho de faxineira, ela ingressou no setor turístico, oferecendo serviços de guia e aluguel de sua casa. “Nós precisamos contar nossa própria história e garantir que o dinheiro circule dentro da comunidade”, afirma Cláudia. Para ela, a valorização profissional está diretamente ligada ao aprendizado de novas línguas, visando atender uma clientela cada vez mais diversificada.
Jucilene Pereira Diniz, de 50 anos, também se destaca como uma das quatro mulheres motosqueiras cadastradas no Na Favela Turismo. Com uma trajetória de superação, ela se dedica a aprender novos idiomas e busca realizar sonhos que sempre ficaram para trás. “O turismo é uma oportunidade de mudança não apenas para mim, mas para todos na comunidade”, ressalta Jucilene.
O Futuro do Turismo na Rocinha
O futuro do turismo na Rocinha parece promissor, com a expectativa de que políticas públicas possam apoiar o desenvolvimento sustentável da atividade. João Bosco acredita que o reconhecimento do turismo comunitário é essencial para fomentar a economia local e fortalecer a identidade cultural da favela. “O turismo na Rocinha é gerido por moradores e para moradores, criando uma dinâmica de renda que valoriza a cultura e a inovação, desafiando estigmas históricos”, conclui o líder comunitário.

