Turismo de Base Comunitária: Uma Nova Perspectiva
No Brasil, de norte a sul, comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas estão revolucionando o setor de turismo. Essas populações têm utilizado seus saberes ancestrais e os recursos naturais locais para criar negócios sustentáveis que geram renda e promovem a cultura. O fenômeno do turismo de base comunitária (TBC) ganha força, com pequenos empreendimentos coletivos geridos pelos próprios moradores, evidenciando a importância da valorização das identidades locais.
As iniciativas de TBC formam microcadeias produtivas, que englobam alimentação, hospedagem e vivências culturais, fortalecendo a autoestima da população e criando novas oportunidades de trabalho. “Essas ações ajudam a reduzir o êxodo e destacam tradições que, de outra forma, poderiam desaparecer”, afirma Alexandre Alves Costa Luz, coordenador de Pluralidade da Agência Ilhas, vinculada ao Sebrae no Pará. Ele ressalta que, em regiões onde as opções são limitadas, o turismo comunitário fornece autonomia e assegura a preservação ambiental.
O Crescimento do Turismo de Base Comunitária
Embora ainda represente uma parcela pequena do turismo no Brasil, as experiências de TBC estão se multiplicando. Muitas dessas iniciativas são lideradas por mulheres negras, que veem nesse modelo uma chance de fortalecer sua identidade e conquistar a independência financeira. “As mulheres têm um domínio sobre o impacto social que o turismo pode causar, e isso está enraizado na matriz africana, que tem um forte componente maternalista”, explica Fau Ferreira, especialista em afroempreendedorismo do Sebrae.
Entretanto, as mulheres enfrentam uma dura realidade, com salários 48% menores que as mulheres brancas e 61% menores que os homens brancos, além de dificuldades com acesso a crédito e visibilidade no mercado. Para Thaís Rosa Pinheiro, turismóloga e CEO da agência Conectando Territórios, a falta de investimentos é o principal entrave para o crescimento do TBC. “Com muitos desses negócios localizados em áreas remotas, é essencial oferecer suporte em estrutura e capacitação para que possam se desenvolver”, afirma.
O Novo Perfil do Turista e Oportunidades Emergentes
A demanda por turismo de base comunitária também reflete uma mudança no perfil do turista brasileiro. Tânia Neres, da Embratur, destaca que enquanto o Brasil tradicionalmente vendia sua imagem atrelada ao sol e à praia, há uma nova demanda por experiências que valorizam a identidade cultural. A geração Z, especialmente, demonstra interesse por viagens sustentáveis e inclusivas, que proporcionam interação com comunidades tradicionais.
Para que o TBC prospere, no entanto, é necessário um esforço conjunto em capacitação e formulação de políticas públicas. Iniciativas como o programa Rotas Negras, uma ação interministerial, visam apoiar a formalização e a gestão dos serviços turísticos locais. “Estamos diante de comunidades que são verdadeiros guardiães do conhecimento cultural e ancestral, verdadeiras bibliotecas a serem exploradas”, afirma Clédisson Júnior, secretário do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial.
Exemplos de Sucesso no Turismo de Raiz
A continuidade e expansão do turismo de raiz revelam histórias inspiradoras. A Caboclos House, em Iranduba (AM), é um exemplo de como o turismo pode transformar realidades. Criada por Nilde Silva, a estrutura oferece hospedagem e vivências na floresta, promovendo a geração de renda e a preservação da natureza. O bar e restaurante Bar do David, no Rio de Janeiro, serve como uma vitrine de como o turismo pode gerar empregos e capacitar moradores locais, recebendo visitantes de todo o mundo. A plataforma Diaspora.Black conecta viajantes a experiências afrocentradas, permitindo que a cultura e a ancestralidade sejam valorizadas e respeitadas.
Outro exemplo é a Hospedagem e Camping Kalunga Raio de Luz, que promove vivências em uma comunidade quilombola em Goiás. Dominga Natália Moreira, líder da iniciativa, destaca a importância do turismo para a dignidade da comunidade e a preservação de suas raízes. Na Ilha de Marajó, Jessyca Goes Sampaio está desenvolvendo experiências que envolvem saberes tradicionais, promovendo a conexão entre visitantes e a cultura local.
A importância do turismo de base comunitária é inegável: ele representa não apenas uma forma de resistência, mas também uma oportunidade de prosperar, preservando a cultura e o meio ambiente. O futuro promete um panorama mais vibrante para o turismo no Brasil, onde as tradições e saberes populares serão cada vez mais valorizados.

