O Místico Legado de Tim Maia
Em 1974, Tim Maia (1942-1998) já era uma das personalidades mais queridas da Música Popular Brasileira (MPB). Com sucessos como “Primavera”, “Cristina” e “Gostava tanto de você”, ele havia conseguido traduzir em suas canções a essência do soul e do pop, proporcionando uma nova experiência musical aos brasileiros. Suas obras, lançadas em seus primeiros quatro álbuns, conquistaram o público e solidificaram sua reputação como um ícone da música nacional.
No entanto, o que muitos não sabem é que, nesse mesmo ano, a RCA adquiriu o passe de Tim Maia da Polydor, permitindo ao artista a liberdade criativa que ele tanto desejava. Em um estúdio de Copacabana, Maia fez planos para um disco duplo, levando consigo as influências de Stevie Wonder e Curtis Mayfield. Durante essa jornada, acabou se deparando com um livro de Manoel Jacintho Coelho, intitulado “Universo em desencanto”, que mudaria sua trajetória musical.
A Revolução de ‘Tim Maia Racional’
Esse encontro deu início à criação de “Tim Maia Racional”, um álbum que foi lançado em dois volumes entre 1975 e 1976. Os discos, que logo voltarão a ser reeditados em vinil, são obras que mergulham na Cultura Racional, uma filosofia que propunha que seres de um planeta perfeito estavam exilados na Terra, e que a salvação estaria na “imunização racional”. A influência dessa doutrina foi tão marcante que Tim, após se desiludir com ela, tentou renegar o trabalho e até impediu a reedição dos álbuns.
No entanto, a paixão do público por essas obras só cresceu. Os discos, que foram produzidos em pequenas quantidades e vendidos pela própria gravadora de Tim, a Seroma, tornaram-se raridades cobiçadas por colecionadores e DJs, especialmente a partir dos anos 2000. A busca por essas cópias tem gerado preços exorbitantes em sebos e mercados de música.
Atração pela Excentricidade
O apelo dos álbuns “Tim Maia Racional” pode ser atribuído, em parte, à sua excentricidade. Tim Maia, afastado do consumo de álcool e drogas, dedicou essas gravações à divulgação da Cultura Racional, acreditando que essa era a única forma de evitar um futuro sombrio para a humanidade. Para uma nova geração que não viveu as utopias místicas da década de 1970, músicas como “Imunização Racional (que beleza)” e “Rational culture” são vistas como testemunhos ingênuos de um tempo em que a busca por significado era intensa. Essa ironia e a ousadia musical de Tim atraíram um público jovem que aprecia a autenticidade e a originalidade.
Além disso, os álbuns marcam uma fase de grande criatividade do artista, que estava em um momento de esplendor vocal e acompanhado pela sua melhor banda, com músicos renomados como Paulinho Guitarra e Robson Jorge. O Volume 1, em particular, destaca-se por sua qualidade e contém clássicas faixas como “Leia o livro Universo em Desencanto” e “Contacto com o mundo Racional”. Essas canções, repletas de nuances, mostram o talento inegável de Maia e seu compromisso com a inovação no cenário musical.
A Recepção do Volume 2 e 3
Em contraste, o Volume 2 é frequentemente visto como um pouco mais fraco, com a sensação de que algumas faixas não se sustentam tão bem quanto as do primeiro disco. Embora traga versões alternativas de algumas músicas e faixas novas como “Paz interior”, ele não consegue capturar a mesma magia. No entanto, algumas canções, como “O dever de fazer propaganda deste conhecimento” e “Guiné-Bissau, Moçambique e Angola Racional”, ainda mantêm a relevância e o caráter inovador que marcaram a obra de Maia.
Por fim, o Volume 3, mesmo sendo um EP, surpreende com seu conteúdo mais interessante, apresentando faixas como “É preciso ler e reler” e “I am Rational”, que abordam a temática da racionalidade de forma ousada e envolvente. A mistura de ritmos e a mensagem profundamente enraizada nas canções mostram que, mesmo com os desafios enfrentados, a música de Tim Maia continua a ressoar com força e a encantar novas gerações.

