Os Efeitos das Sanções sobre a Economia Iraniana
As sanções econômicas dos Estados Unidos têm se mostrado um instrumento poderoso na política externa americana, especialmente em relação a países como Irã e Venezuela. Estudos recentes sublinham que essas restrições não apenas dificultam a estabilização econômica, mas também provocam um aumento nas tensões sociais. No contexto iraniano, as sanções impostas de forma unilateral, juntamente com aquelas estabelecidas pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) devido ao programa nuclear iraniano, afetam diretamente a economia e a vida cotidiana da população.
A escassez de recursos financeiros e a desvalorização da moeda iraniana, que acumula cerca de 50% de perda em 2025, são reflexos dessa pressão econômica. Ao mesmo tempo, a inflação oficial, que atinge 42%, erode o poder de compra dos cidadãos, resultando em crescente insatisfação e protestos populares.
Impacto Direto das Sanções na Economia e na População
Para entender os efeitos desse cerco econômico no Irã, a Agência Brasil entrevistou especialistas e analisou relatórios da ONU. A economista e socióloga Juliane Furno, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), destaca que a intensificação das sanções começou em setembro de 2025, logo após um conflito que se arrastou por 12 dias, envolveu Israel e teve repercussões internacionais. Segundo Furno, o principal resultado das sanções é a limitação do acesso do Irã aos dólares e ao sistema financeiro global, afetando tanto as transações diárias quanto as operacionais.
As sanções vigentes incluem o congelamento de ativos fora do país, severas limitações ao comércio internacional e penalidades a empresas estrangeiras que investem acima de US$ 20 milhões no setor energético iraniano. A economista evidencia que o bloqueio econômico não é uma novidade; suas raízes remontam a 1979, após a Revolução Iraniana, quando o governo aliado dos Estados Unidos foi derrubado. Desde então, as pressões econômicas têm causado desvalorizações sucessivas do rial, a moeda local, impactando diretamente os preços e a qualidade de vida da população.
A Crise do Setor Energético e suas Consequências
Documentos do Congresso dos Estados Unidos reconhecem que as sanções impostas ao Irã constituem o regime de restrições mais rigoroso já aplicado pelo país. Um relatório divulgado em julho de 2024 pela relatora especial da ONU para os efeitos das sanções sobre os direitos humanos, Alena Douhan, revela uma conexão clara entre o bloqueio econômico e a crise econômica iraniana. Segundo Douhan, as restrições no setor energético, a principal fonte de receita do país, são responsáveis por muitos dos problemas enfrentados.
Em torno de 50% do orçamento do governo iraniano depende das vendas de petróleo. Douhan observa que, após a flexibilização das sanções em 2015, o Irã conseguiu expandir suas exportações. Contudo, a reintrodução das sanções em 2019 fez com que essas vendas despencassem, caindo para menos de 500 mil barris por dia em 2020, o que resultou em uma considerável redução na arrecadação pública.
Conseqüências Sociais e de Saúde
O levantamento da ONU mostra que os níveis de inflação no Irã são diretamente proporcionais ao rigor das sanções. Após as restrições, os preços dispararam, com um aumento de cerca de 85%, e o custo dos alimentos dobrou em um curto período. Pesquisas acadêmicas apontam para o encolhimento da classe média; uma pesquisa publicada em dezembro de 2025 relatou uma redução de até 17 pontos percentuais ao ano entre 2012 e 2019.
No campo da saúde pública, um estudo da revista científica The Lancet indicou que as sanções da ONU afetaram severamente a importação de medicamentos essenciais, resultando em aumentos de preços que superaram 300% e deixando milhões de iranianos sem acesso a tratamento adequado.
Justificativas e Críticas das Sanções
O governo dos Estados Unidos defende as sanções como uma resposta a alegações de violações de direitos humanos e financiamento de grupos considerados terroristas. Washington afirma que o objetivo das medidas é forçar o desmantelamento do programa nuclear iraniano, que o Irã sustenta ter fins pacíficos. No entanto, muitos críticos argumentam que tais justificativas são meros pretextos para tentar alterar regimes que desafiam a hegemonia ocidental no Oriente Médio.
O cientista político Bruno Lima Rocha expressa que essa retórica em prol da democracia se desmorona quando observamos as alianças estratégicas dos EUA. Ele enfatiza que o verdadeiro cerne do conflito reside na oposição do Irã ao imperialismo e no apoio à causa palestina. Rocha observa que o Irã, ao contrário de Israel, é signatário do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, o que torna a narrativa sobre seu programa nuclear ainda mais complexa.
Sanções: Um Instrumento de Impacto Global
Pesquisas recentes comparam os efeitos das sanções a conflitos armados, com um estudo da revista The Lancet Global Health estimando que sanções unilaterais levam a cerca de 560 mil mortes anuais em todo o mundo. Outra pesquisa britânica aponta que esses bloqueios podem diminuir a expectativa de vida entre 0,4 e 1,4 anos, afetando principalmente mulheres, crianças e populações vulneráveis. Além disso, as sanções estão relacionadas ao aumento da mortalidade infantil e à propagação de doenças, levantando questionamentos sobre a utilização desse instrumento como arma geopolítica.

