Uma Viagem pela História do Samba na Praça Onze
O que hoje conhecemos como Sambódromo da Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, já foi parte do vibrante bairro da Praça Onze. No final do século 19, essa área se tornou lar para imigrantes, principalmente negros e judeus, que buscavam novas oportunidades. Infelizmente, em 1942, o bairro foi demolido, mas sua rica cultura ainda ecoa através do samba.
O livro “Quando Vem da Alma de Nossa Gente – Sambas da Praça Onze” (2025; 224 páginas, editora Garota FM Books), assinado pela pesquisadora Beatriz Coelho Silva, é uma importante contribuição para a preservação da memória desse bairro histórico. A partir do samba, Beatriz faz uma radiografia da Praça Onze, ressaltando a conexão da música com a cultura da região, que inclui a zona portuária, muitas vezes chamada de “Pequena África”, devido à sua forte influência negra.
Recentemente, o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro divulgou uma fotografia inédita da casa onde viveu Tia Ciata, uma figura emblemática do samba que organizou memoráveis rodas em sua residência na Praça Onze. O livro não apenas traça a evolução do bairro, mas também relaciona sua história à do samba, analisando 14 músicas que falam sobre a vida na Praça Onze, incluindo três obras de João da Baiana.
O Samba e a Comunidade da Praça Onze
Durante a primeira metade do século passado, a Praça Onze se consolidou como um reduto popular do samba na capital federal. Cantores e produtores da época, como Mário Reis e Francisco Alves, frequentavam o local em busca de sambas para a crescente indústria fonográfica do Brasil. O livro revela que o bairro também era palco do “carnaval dos pobres”, atraindo cerca de 40 mil pessoas, um número impressionante para a época.
Apesar da demolição, que foi parte de um plano de reurbanização do centro do Rio, a Praça Onze manteve-se viva na memória musical carioca. Beatriz classifica os sambas relacionados ao bairro em três grupos distintos: os compostos na década de 1930, que retratam os costumes e a vida dos moradores; os criados durante o período da demolição, que expressavam a dor pela perda do local; e os que surgiram depois dos anos 1950, carregando um tom nostálgico.
Dois sambas que marcaram a história e ainda são lembrados são “Tempos Idos” (Cartola e Carlos Cachaça), que evoca a saudade da Praça Onze, e “Bumbum Paticumbum Prugurundum” (Beto Sem Braço e Aluísio Machado), que exalta a imortalidade do bairro.
A Herança de João da Baiana
João da Baiana, que viveu de 1987 a 1974, merece um destaque especial no livro. Nascido e criado na Praça Onze, ele foi uma das figuras mais representativas do samba, trazendo sua ancestralidade para a essência do gênero. Cantor, compositor e percussionista, João da Baiana simboliza o nascimento do samba urbano.
No livro, Beatriz também analisa algumas de suas composições, apresentando um retrato rico do músico e do ambiente em que ele cresceu. Lançada no meio do ano passado, a obra oferece um contexto fascinante sobre os protagonistas do samba e sua relação intrínseca com o carnaval. É, sem dúvida, uma leitura cuidadosa e envolvente para aqueles que desejam compreender as sutilezas do samba e sua profunda conexão com a cultura carioca.

