Políticas de Saúde nas Favelas em Debate
No dia 10 de fevereiro, o Museu de Favela (MUF), localizado em Ipanema, sediou um encontro significativo que reafirmou uma verdade fundamental nos territórios: a saúde se constrói em rede, com escuta ativa, participação comunitária e protagonismo. Com o tema “Políticas de cuidado nas favelas produzem saúde para todas as pessoas”, o Dia Estadual de Saúde nas Favelas reuniu lideranças, organizações sociais, pesquisadores e representantes institucionais. O evento teve como objetivo celebrar e fortalecer as ações do Plano Integrado de Saúde nas Favelas do Rio de Janeiro, uma iniciativa da Fiocruz que articula universidades, coletivos comunitários e organizações sociais.
A abertura do evento contou com a participação do vice-presidente de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz, Valcler Rangel, que destacou a abrangência nacional da experiência desenvolvida no estado. Rangel afirmou: “Temos hoje um conjunto de iniciativas espalhadas pelo país, focadas na população das favelas e periferias, que se inspiraram no Plano Integrado de Saúde nas Favelas e na rede 146x Favela. Essa experiência oferece um modelo a ser seguido em outros estados, como Amazonas, Pará, Ceará, Pernambuco, e até em Minas Gerais e São Paulo”. Ele ressaltou que muitos projetos estão sendo liderados por mulheres e jovens, destacando ainda uma mesa com o Ministério de Direitos Humanos e Cidadania, que abordará o envelhecimento nas periferias e favelas em março, evidenciando a inserção do tema nas políticas públicas.
O Tempo Invisível do Cuidado
A mesa institucional trouxe também a voz de Gisele Castro, coordenadora do Instituto Golfinhos da Baixada, que abordou a experiência das mulheres nas favelas e o que ela chamou de “tempo invisível do cuidado”. Ela comentou: “Uma das realidades mais impactantes do cuidado nas favelas é o tempo que as mulheres dedicam. Mães podem despender até 15 horas por dia cuidando de suas famílias, das 7 às 22 horas. Muitas delas, especialmente as mulheres negras, não têm a opção de não cuidar. A Política Nacional de Cuidado precisa levar em conta essa questão de gênero e buscar uma equiparação justa”.
Esse diálogo se alinha aos dados apresentados na Avaliação Diagnóstica Externa, realizada pela PUC-Rio e UFRJ, que analisou 46 projetos apoiados pelo primeiro edital do Plano. O estudo revelou que a presença feminina é central nas ações: as mulheres se destacam tanto como público majoritário quanto como líderes das iniciativas.
A cientista social Mariana Camasmie, pesquisadora da PUC-Rio e integrante da equipe que conduziu o diagnóstico, enfatizou a força da presença feminina: “Observamos uma expressiva participação das mulheres em diversas frentes, com um alto percentual de lideranças comunitárias. Isso ficou claro nos relatórios, especialmente na articulação entre organizações e lideranças locais”.
Saúde como Prática Coletiva
O evento foi dividido entre uma visita guiada às exposições do MUF e uma oficina intitulada “Cuidado como Prática Coletiva nos Territórios”, conduzida pela Casa Fluminense e pelo Espaço Gaia. Essa oficina visou mapear práticas de cuidado que já ocorrem nas comunidades, muitas vezes sem o devido reconhecimento como políticas de saúde.
Lívia Santos, vice-diretora do Espaço Gaia, que atua em favelas de São Gonçalo, ressaltou a necessidade de incluir a questão de gênero nas discussões. “Temos uma oportunidade significativa de trazer a questão dos territórios à Secretaria Nacional de Cuidados. A dificuldade de manter o tema gênero na política nacional de cuidados é grande, e estamos aqui para mostrar que não é possível discutir cuidado sem considerar gênero. Mulheres representam quase 80% dos responsáveis por projetos sociais, o que já indica como o cuidado é gerido nos territórios”.
Os dados do diagnóstico reforçam essa percepção, com as organizações avaliando positivamente a atuação em rede e destacando a cooperação, corresponsabilidade e fortalecimento institucional. No entanto, também foram apontados desafios em relação à obtenção de recursos e à sobrecarga das lideranças, que impactam diretamente a sustentabilidade das ações. Apesar disso, o estudo concluiu que a chamada pública desempenhou um papel estratégico no fortalecimento das redes territoriais, ampliando a participação social e consolidando a saúde como um direito coletivo.
Transformação das Políticas Públicas
No encerramento do encontro, o coordenador executivo do Plano, Richarlls Martins, frisou que o debate sobre políticas de cuidado nas favelas representa uma inflexão importante na agenda pública. “Ao falarmos de políticas de cuidado nas favelas, estamos afirmando que esses territórios elaboram soluções concretas para os desafios da saúde pública. O cuidado que emerge nas favelas é coletivo, solidário e político, enfrentando desigualdades históricas relacionadas a raça, gênero e renda. Reconhecer isso é crucial para que as políticas públicas deixem de ver as favelas apenas como espaços vulneráveis e comecem a reconhecê-las como centros de conhecimento, inovação e direito à saúde”. Martins concluiu que o Plano Integrado de Saúde nas Favelas tem demonstrado que a colaboração entre organizações comunitárias, universidades e o poder público pode gerar impactos duradouros e significativos.
Ao final do evento, entre conversas e trocas de experiências, ficou claro que o Dia Estadual de Saúde nas Favelas vai muito além de uma simples data comemorativa. “É um marco que se consolida como espaço estratégico de construção política, onde cuidado, território e participação social caminham juntos, firmando a saúde como um direito coletivamente produzido”, definiu Martins.

