A Fragilidade da Democracia e as Aparências
A democracia brasileira enfrenta um momento crítico, afundando-se em superficialidades. Muitas decisões políticas parecem ser guiadas por aparências, o que resulta em uma série de enganos e falhas de avaliação. Um exemplo claro dessa situação é a atual corrida presidencial, onde muitos se iludem ao acreditar que a disputa está acirrada. No entanto, as pesquisas de intenção de voto não corroboram essa percepção. De fato, ainda é cedo para ter uma visão precisa das reais intenções dos eleitores.
Jair Bolsonaro, em sua trajetória política, foi inicialmente visto como um defensor das liberdades individuais e um liberal econômico. Contudo, sua atuação revela um perfil autoritário e uma gestão questionável, marcada por gastos excessivos. Recentemente condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e cumprindo pena, seus seguidores insistem na narrativa de que ele foi injustamente tratado pela Justiça. Entre esses apoiadores, destaca-se o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que se apresenta como uma alternativa viável na corrida presidencial pelo PSD.
Governança e Impunidade no Rio de Janeiro
Cláudio Castro, governador do Rio de Janeiro, se tornou um símbolo da desilusão política. Durante sua gestão, ele demonstrou uma habilidade notável em enganar a população, mesmo após ter sido parte do governo de Wilson Witzel, também cassado. Castro se viu envolvido em um escândalo relacionado à contratação indevida de mais de 27 mil cabos eleitorais na Ceperj, a fundação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Apesar dessa irregularidade, ele foi reeleito, em parte, devido a uma manobra judicial que atrasou a responsabilização por suas ações. O governo de Castro tem sido marcado por sua ineficácia em lidar com problemas de segurança pública, onde o tráfico de drogas e as milícias se tornaram predominantes enquanto a polícia, sob seu comando, cometia abusos.
Uma decisão judicial controversa, ligada ao governador, impediu que o Estado se livrasse de Castro. O caso se complica ainda mais com a tentativa de promover Rodrigo Bacelar, presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), como seu sucessor. Bacelar, que hoje enfrenta a inelegibilidade, era suspeito de ligações com o crime organizado. A eleição para seu substituto tornou-se uma farsa, realizada em uma votação relâmpago que foi considerada ilegal. O objetivo era que um novo presidente, alinhado ao PL, assumisse o governo. Contudo, a Justiça interveio e anulou essa manobra.
Decisões Controversas no STF e o Futuro da Política Brasileira
Recentemente, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) condenou Castro por abuso econômico e o tornará inelegível. Sua renúncia foi uma tentativa estratégica de escapar da punição e de se candidatar ao Senado, mas a inelegibilidade impedirá que ele busque esse cargo. Esse cenário ressalta como a política do Rio de Janeiro está repleta de manobras que desconsideram a vontade do eleitor e as normas legais.
No que diz respeito a Jair Bolsonaro, o julgamento de sua conduta pelo STF levantou questionamentos sobre a capacidade de alguns ministros de compreender as dinâmicas da democracia. O ministro Luiz Fux, por exemplo, não identificou a gravidade de certos atos realizados durante o governo. Por outro lado, a atuação do ministro André Mendonça, ao autorizar a prorrogação da CPI mista sobre fraudes no INSS, levantou suspeitas de que ele estava invadindo prerrogativas do Legislativo. Essa decisão foi posteriormente anulada pelo plenário do STF, que reafirmou o princípio da separação de poderes, fundamental para o funcionamento da democracia.
O Papel do Judiciário e os Desafios da Democracia
O Judiciário brasileiro tem desempenhado um papel crucial na proteção da democracia, especialmente desde 2018, quando Bolsonaro assumiu a presidência. Entre suas ações mais importantes, estão a inelegibilidade de Castro, a cassação de Bacelar e a anulação de manobras que ameaçavam a integridade das instituições. Contudo, a interferência monocrática de alguns ministros do STF nas prerrogativas do Legislativo levanta preocupações sobre a saúde da democracia, debilitando o sistema de freios e contrapesos que é vital para a governança.
É essencial que a democracia não se baseie em uma política de aparências, mas sim na eficácia real das decisões e ações. A coesão entre os poderes e o respeito às suas prerrogativas são fundamentais. A situação política no Rio de Janeiro serve como um alerta, mostrando que os problemas não são exclusivos de um único estado, mas refletem um padrão preocupante em várias partes do Brasil. Decisões tardias, muitas vezes, não conseguem evitar os danos ocasionados à democracia e à sociedade.

