Estudo Brasileiro Aponta que Bem-Estar Espiritual Contribui para a Saúde do Coração
Uma nova pesquisa realizada no Brasil indica que encontrar um propósito de vida e cultivar a paz interior pode ter um efeito positivo na saúde cardíaca. O estudo, desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), revelou uma associação entre o bem-estar espiritual e o funcionamento otimizado dos vasos sanguíneos.
O cardiologista Marcelo Franken, do Hospital Israelita Albert Einstein, conversou com a Folha de S.Paulo sobre os riscos associados à perda dessa função biológica. Segundo ele, quando a atividade do endotélio é comprometida, “os vasos têm mais dificuldade para se dilatar, o que resulta em maior inflamação vascular, vasoconstrição, aumento da permeabilidade e coagulação”. Esse marcador precoce de risco mostra que o estresse e a falta de sentido na vida podem ser mensurados fisicamente no corpo.
A espiritualidade, neste contexto, foi analisada como uma experiência subjetiva capaz de ser transformada em um indicador científico mensurável. O cardiologista André Casarsa, um dos autores do estudo, explicou a metodologia utilizada: “Investigamos três dimensões principais da experiência espiritual: paz interior, sentido ou propósito de vida e fé. Por meio de um questionário simples, conseguimos avaliar como os indivíduos vivenciam essas dimensões em seu cotidiano, permitindo a transformação de uma experiência subjetiva em um dado mensurável para a pesquisa científica”, afirmou o médico.
Paz e Bem-Estar: A Chave para a Saúde do Coração
Os resultados obtidos apontam que a sensação de paz interior e a busca por um propósito de vida exercem uma influência biológica mais significativa do que a prática religiosa isolada. Julio Tolentino, professor de medicina que orientou o estudo, esclareceu a diferença entre crença e bem-estar. “A religiosidade diz respeito ao quanto cada indivíduo acredita, segue ou pratica uma ou mais religiões. Já a espiritualidade é um conceito mais amplo, que abrange todas as pessoas, independentemente de sua religiosidade. Trata-se da busca por significado, propósito e conexão consigo mesmo, com os outros ou com aquilo que a pessoa considera sagrado”, explicou Tolentino.
Além disso, a fé religiosa por si só não demonstrou os mesmos benefícios cardiovasculares que um estado interno de harmonia. André Casarsa enfatizou que a proteção cardíaca está intimamente relacionada à maneira como cada indivíduo vê sua própria existência. Nesse sentido, a medicina contemporânea tem buscado integrar esses aspectos psicológicos nas consultas regulares, ao lado dos cuidados tradicionais.
Marcelo Franken finalizou lembrando que a saúde cardiovascular é influenciada por uma série de fatores interconectados: “Podemos destacar oito aspectos cruciais: alimentação balanceada, prática de exercícios físicos, não fumar, garantir uma boa qualidade de sono, além de manter o controle do peso, da pressão arterial, do colesterol e do diabetes. E, claro, não podemos esquecer da saúde mental e dos determinantes sociais de saúde, como as condições de moradia, trabalho e relações sociais”, concluiu o especialista.

