Conflitos de Interesses e Politicagem no Palácio
O cenário político do Rio de Janeiro está em ebulição com a perspectiva de um mandato-tampão. O governo federal, sob a liderança do Palácio do Planalto, parece estar disposto a apoiar a candidatura de André Ceciliano (PT), ex-presidente da Alerj e atualmente secretário de Assuntos Legislativos do Ministério das Relações Institucionais. Ao mesmo tempo, o senador Flávio Bolsonaro (PL), que busca estabelecer um palanque forte no estado, planeja apoiar um candidato da direita para o governo em outubro, vislumbrando o deputado estadual licenciado Douglas Ruas, atual secretário das Cidades, como o nome ideal para a função.
A movimentação política em torno da candidatura de Ceciliano ganhou força nos últimos dias, especialmente após receber o apoio de figuras influentes na Alerj, como o presidente afastado Rodrigo Bacellar (União) e ex-governadores respeitados como Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão (MDB). Pezão, que atualmente é prefeito de Piraí, conversou recentemente com Lula sobre o potencial de Ceciliano, que estima ter entre 25 e 29 votos na Assembleia Legislativa, se aproveitando do apoio de parte do Centrão fluminense e de setores da esquerda, insatisfeitos com a aproximação de Paes com a direita.
O Descontentamento de Lula e a Lealdade de Paes em Questão
Na última quinta-feira, a newsletter ‘Jogo Político’ revelou que Lula expressou descontentamento em relação a uma declaração do vice-prefeito Eduardo Cavaliere (PSD), que desdenhou das promessas do presidente sobre segurança pública. Essa insatisfação foi tema de uma reunião entre Lula e o prefeito do Rio, Eduardo Paes, onde o prefeito garantiu lealdade a Lula nas eleições, embora o PT mantenha um pé atrás quanto à sinceridade dessa aliança, temendo uma possível traição a depender dos resultados eleitorais em outros estados.
A candidatura de Ceciliano, nesse contexto, surge como uma alternativa viável para o Planalto. Se ele conseguir assumir um papel como governador interino, poderia ser um candidato à reeleição em outubro. No entanto, os cálculos de Lula enfrentam o risco de desfalques entre seus próprios aliados. Dos seis deputados petistas atuantes na Alerj, dois têm laços com Washington Quaquá, um rival dentro do partido, além de uma amizade com Paes que pode complicar a candidatura de Ceciliano.
As Articulações de Paes e o Jogo de Poder na Assembleia
Paes se aproveita de suas conexões com líderes nacionais de partidos como PSB e PDT para tentar neutralizar o apoio a Ceciliano. Recentemente, o ex-ministro Carlos Lupi, do PDT, contatou Paes em busca de um alinhamento estratégico para a disputa na Alerj. Em contrapartida, Ceciliano conta com a colaboração do deputado federal Max Lemos, do PDT, em sua articulação.
Na terça-feira (20), Paes não hesitou em criticar Ceciliano durante uma missa em homenagem a São Sebastião, questionando: “Quem é André Ceciliano? É político? Ou é um personagem da cidade do Rio de Janeiro?”. Para que Ceciliano possa ser um concorrente forte, ele precisará garantir o apoio da federação composta pelo União Brasil e PP, que possui 15 deputados na Alerj. Apesar de lealdades passadas, a aceitação do apoio a Ceciliano ainda é um desafio.
O Papel de Douglas Ruas e o Envolvimento de Flávio Bolsonaro
Paes está determinado a minar a candidatura de Douglas Ruas ao mandato-tampão. Recentemente, o prefeito conversou com o deputado federal Altinêu Cortes, próximo a Ruas, insinuando que um futuro na Assembleia poderia ser mais vantajoso se Ruas concorresse a deputado estadual ao invés de almejar uma posição interina. Caso Ruas entre na corrida pelo mandato-tampão, ele já começaria com um apoio significativo do PL, que representaria mais da metade dos votos necessários para garantir a maioria na Assembleia.
Nem mesmo a influência de Bacellar sobre os partidos da federação parece intimidar Flávio Bolsonaro, que já deixou claro sua intenção de garantir que seu candidato a governador interino assuma o cargo. O ex-prefeito de Duque de Caxias, Washington Reis (MDB), aparece como uma opção para Flávio, embora a possibilidade de uma condenação no Supremo Tribunal Federal possa complicar essa escolha. Alternativamente, o secretário de Polícia Civil, Felipe Curi, que se destacou publicamente após operações policiais, pode ser considerado, embora tenha mostrado preferência por concorrer a deputado federal.
Desafios Fiscais e a Sucessão no Governo do Estado
Do lado de Castro, a intenção de emplacar Nicola Miccione na eleição indireta ainda não foi abandonada. O governador atual ressalta a necessidade de ter um quadro técnico para lidar com os desafios fiscais emergentes, que apresentam um déficit de R$ 18,9 bilhões no orçamento aprovado para o ano. A situação atual é um contraste marcante em relação à campanha de 2022, quando Castro foi eleito com a promessa de benefícios financeiros que pareciam animadores.
A possibilidade de uma eleição indireta foi inicialmente formulada em maio do ano passado, mas a sequência de rompimentos e escândalos políticos transformou o cenário. A quebra da aliança entre Castro e Bacellar, juntamente com a prisão do deputado, resultou em uma reviravolta nos planos políticos. Agora, a ascensão de Castro na popularidade e o contexto eleitoral, com a saída de um presidente do Tribunal de Justiça para convocar eleições, moldam um cenário incerto e carregado de possibilidades para o futuro político do Rio de Janeiro.

