Análise da Disputa Política em Torno do Cinema Brasileiro
O lançamento do filme “O Agente Secreto”, um ano após o sucesso internacional de “Ainda Estou Aqui”, reavivou a polarização política no Brasil. As indicações do novo longa a quatro categorias no Oscar 2026, reveladas nesta quinta-feira, intensificaram a troca de farpas entre o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e o bolsonarismo. A consultoria Bites, em um levantamento encomendado pelo GLOBO, aponta que a esquerda dominou as conversas digitais sobre a obra. O presidente Lula, com um post que alcançou 1,2 milhão de curtidas, foi o protagonista desse debate, contabilizando ainda três outras publicações entre as dez mais engajadas.
Além do reconhecimento internacional, a produção acumulou impressionantes 3,37 milhões de menções nas redes sociais desde o início de 2023, com o total de interações girando em torno de 70 milhões. A análise realizada pela Bites sugere que, assim como em 2023, quando “Ainda Estou Aqui” venceu na categoria Melhor Filme Internacional, a esquerda demonstrou uma habilidade notável em capitalizar sobre o triunfo dos filmes brasileiros.
Respostas da Direita e a Diferença de Estratégias
Enquanto o debate se intensificava, algumas figuras da direita, como o deputado federal Mario Frias, ex-secretário de Cultura durante o governo Bolsonaro, tentaram engajar o público em defesa do legado de sua administração na cultura. Contudo, segundo especialistas, o bolsonarismo falhou em construir um discurso coeso contra o filme. Em anos anteriores, a direita havia clamado por uma defesa do Brasil nas premiações, mas, desta vez, as críticas pareciam fracas e ineficazes, focando em ataques a Wagner Moura e ao enredo relacionado à ditadura militar. Essa linha de argumentação não ressoou com a população, que estava mais receptiva à valorização do cinema nacional.
André Eler, diretor-técnico da Bites, analisa que “é evidente que o bolsonarismo não conseguiu sustentar um argumento forte contra o filme. O cinema brasileiro, inserido em um contexto de premiações, carrega uma pauta positiva que é mais fácil de ser explorada pela esquerda.” As publicações de Lula, além de outras figuras como a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) e a ex-parlamentar Manuela D’Ávila (PSOL), também se destacaram nas redes sociais, contribuindo para a hegemonia da esquerda no cenário digital.
Apoio Governamental e Impacto Cultural
O governo Lula manifestou apoio ao longa desde sua estreia em festivais internacionais, com o presidente e sua esposa, Rosângela da Silva (Janja), recebendo Wagner Moura e o diretor Kleber Mendonça Filho no Palácio da Alvorada. Juntos, Lula e Janja publicaram 19 postagens sobre o filme, contabilizando 3,4 milhões de interações. Em contraponto, críticas da direita, como as de Renan Santos, que teve pouco mais de 30 interações em sua publicação, mostraram a dificuldade em emplacar uma narrativa que ressoasse com a população.
O enredo de “O Agente Secreto” aborda a vida de Marcelo, um especialista em tecnologia que busca reconexão com seu filho no Brasil de 1977, período marcado pela repressão da ditadura militar. O pico de menções ao filme nas redes sociais ocorreu em 11 e 12 de janeiro, logo após sua vitória no Globo de Ouro na categoria internacional, reforçando a atenção e o engajamento do público.
Críticas ao Passado e a Polarização Atual
Durante o lançamento, a equipe do filme não hesitou em criticar o governo anterior. Kleber Mendonça Filho, ao receber um prêmio, ressaltou a mudança política no país. “O Brasil, há 10 anos, se deslocou para a direita, e essa fase já passou”, declarou, referindo-se ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que atualmente cumpre pena por tentativa de golpe de Estado. Wagner Moura, por sua vez, ironizou a administração bolsonarista, agradecendo-a por motivar reflexões sobre a memória da ditadura militar no Brasil.
Para o cientista político Fábio Vasconcellos, a polarização em torno da cultura é uma tendência crescente nas democracias ocidentais. Ele observa que a agenda cultural mobiliza intensamente a sociedade, despertando identidades e emoções. “O debate eleitoral tem se transformado, passando de uma discussão racional para uma arena onde as emoções predominam, especialmente com o crescimento da comunicação digital”, analisa. Por fim, Carolina Botelho, também cientista política, observou que o bolsonarismo se mobiliza contra a crescente internacionalização do cinema nacional, utilizando narrativas de “guerras culturais” e desconfiança em relação à esquerda, impactando diretamente o setor cultural brasileiro.

