O Papel das Leis de Incentivo na Economia Cultural
Nos últimos anos, as leis de incentivo à cultura, como a famosa Lei Rouanet, têm sido alvo de intensos debates políticos. Muitos utilizam essas ferramentas para criticar a destinação de recursos públicos a projetos artísticos, insinuando que artistas se aproveitam do dinheiro do governo para fins pessoais ou políticos. Um exemplo recente envolve o filme “O Agente Secreto” e seu protagonista, Wagner Moura, que, após expressar suas opiniões políticas, foi alvo de ataques e acusações de receber verbas públicas.
A desinformação sobre o funcionamento dessas leis tem contribuído para a ideia errônea de que elas representam um desperdício de recursos. No entanto, essa visão ignora os dados que revelam a força do setor cultural na economia. Um estudo da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), divulgado em 2025, aponta que, em 2023, a Indústria Criativa no Brasil correspondeu a 3,59% do Produto Interno Bruto (PIB), totalizando impressionantes R$ 393,3 bilhões.
A cultura também é um atrativo turístico significativo, conforme informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2024, turismo e gastronomia representaram 63,3% das viagens feitas por pessoas de alta renda, demonstrando que a cultura é um pilar fundamental para a economia local.
Impacto das Iniciativas Culturais no Vale do Rio Pardo
No Vale do Rio Pardo, particularmente em Santa Cruz do Sul, o setor cultural tem se destacado continuamente. Eventos como a Oktoberfest e o Festival Santa Cruz de Cinema atraem turistas de diversas regiões, gerando renda e estimulando a criação de empregos. A relevância das leis de incentivo é constantemente reafirmada por produtores culturais, que destacam o retorno econômico que esse apoio proporciona.
Além de gerar renda, os financiamentos disponíveis por meio das leis de incentivo também ajudam na preservação de patrimônios históricos. Juliana Della Giustina, especialista em gestão de projetos culturais, explica que o incentivo à cultura vai além de atividades artísticas, contribuindo para a memória e a história de comunidades. A Casa das Artes Regina Simonis, por exemplo, é um espaço importante em Santa Cruz do Sul, onde exposições valorizam artistas locais e a cultura da região.
Preservação e Valorização Cultural
A Casa das Artes recentemente inaugurou a Galeria Riesch, uma nova área de exposições que homenageia o ator e diretor Roman Riesch. O espaço, que foi restaurado e adaptado, é um exemplo de como as leis de incentivo à cultura podem transformar locais históricos em centros de arte e memória. Carolina Gottert Knies, presidente da Pró-Cultura, enfatiza a importância desses recursos para a infraestrutura cultural, permitindo a realização de eventos e melhorias no espaço.
Entretanto, o desconhecimento sobre essas leis pode ter um impacto negativo. Carolina ressalta que é essencial demonstrar que o financiamento não é aleatório; existe um rigoroso controle sobre a utilização dos recursos. Aqueles que descumprem o acordo do projeto correm o risco de ter que devolver o apoio recebido.
O Papel das Associações na Preservação Cultural
Em Rio Pardo, a Associação de Amigos do Solar do Almirante (Aasa) trabalha na preservação do mais antigo edifício da cidade, construído em 1790. Atualmente, a associação digitaliza documentos históricos valiosos, tornando-os acessíveis ao público através de um portal online, o que promove a preservação da história local e o acesso ao conhecimento.
A presidente da Aasa, Patricia Boeira da Fontoura, afirma que as leis de incentivo são cruciais para a viabilidade dos projetos culturais, fornecendo a maior parte do financiamento necessário para a manutenção do Solar do Almirante e a realização de eventos. “Esses recursos são fundamentais para promover a cultura brasileira, democratizando o acesso ao conhecimento e à arte”, argumenta.
Geração de Empregos e Desenvolvimento Local
A presidente do Conselho Municipal de Cultura, Magui Kampf, destaca que o setor cultural vai além dos artistas, abrangendo uma extensa cadeia produtiva que inclui profissionais como costureiros, marceneiros e técnicos. Cada projeto cultural gera empregos e movimenta a economia local, beneficiando não apenas os envolvidos diretamente na produção, mas também setores como gastronomia e serviços.
A realização de eventos culturais implica custos que movimentam toda a economia, e a importância das leis de incentivo se torna evidente nesse contexto. Elas permitem que agentes culturais realizem projetos que refletem a identidade e as expressões locais, enriquecendo a sociedade como um todo.
Desafios e Oportunidades para o Setor Cultural
Por fim, a crescente disseminação de fake news tem prejudicado o apoio à cultura, levando à desconfiança sobre o uso das leis de incentivo. Magui alerta para o preconceito criado em relação à produção cultural, que muitas vezes é associada a questões políticas e identitárias. Ela enfatiza que os critérios para avaliação dos projetos são técnicos, não partidários, e que a falta de informação adequada pode afetar severamente o desenvolvimento do setor cultural.
O produtor cultural Luciano Medina reforça que eventos como o Santa Cruz Jazz & Blues dependem fortemente das leis de incentivo. Eles geram emprego e surpreendem pela capacidade de movimentar a economia local. No entanto, a dificuldade em conectar empresas a iniciativas culturais impede que muitos projetos potenciais sejam viabilizados.
É evidente que, com o devido conhecimento e apoio, as leis de incentivo à cultura podem se transformar em um motor de crescimento e desenvolvimento econômico, contribuindo significativamente para a riqueza cultural e histórica do Brasil.

