Desfile de Carnaval e Polêmica Política
A homenagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva por uma escola de samba do Rio de Janeiro no desfile de Carnaval deste ano emocionou o líder, que viu sua trajetória de metalúrgico a chefe de Estado ser celebrada. No entanto, a festividade rapidamente se converteu em um foco de controvérsias políticas, levando a partido e aliados do presidente a adotarem uma série de precauções antes e durante o evento.
No domingo à noite, durante o desfile, Lula manteve uma postura discreta. O presidente evitou fazer declarações ou participar de entrevistas para não ser acusado de estar fazendo campanha antecipada. Ele interagiu com os carnavalescos, posou para fotos com a bandeira da Acadêmicos de Niterói – a escola que o homenageou – e fez o mesmo com outras agremiações, como a Imperatriz Leopoldinense, Portela e Mangueira, antes de deixar a Sapucaí por volta das 5h.
Antes mesmo da festividade, diversos partidos da oposição e políticos impetraram ações judiciais, argumentando que Lula estaria se beneficiando de uma forma de campanha ilegal antes das eleições de outubro, quando tentará a reeleição. Embora os tribunais tenham rejeitado todas as ações, incluindo uma que pedia a suspensão do desfile, o governo e seus aliados temem novas contestações que possam surgir posteriormente. O Partido Novo já anunciou que irá solicitar a inelegibilidade do presidente por abuso de poder econômico assim que sua candidatura for registrada.
O desfile da primeira-dama, Rosângela ‘Janja’ da Silva, que participaria do último carro da escola, foi cancelado. Por precaução, Janja assistiu ao desfile do camarote ao lado do presidente, sendo substituída pela cantora Fafá de Belém no carro. Lula também participou de outros carnavais ao longo do país, incluindo o Galo da Madrugada, em Recife, e o carnaval de Salvador.
“Não se trata de campanha”, afirmou Tiago Martins, carnavalesco da Acadêmicos de Niterói, em entrevista à Reuters antes do desfile. “Estamos trazendo a história de um homem guerreiro que, apesar de todas as dificuldades, chegou à Presidência da República.” Contudo, críticos apontam para alusões no samba-enredo que menciona o número 13, associado a Lula e ao PT nas eleições.
“É uma ode ao grande líder, algo que se vê em repúblicas totalitárias”, disparou o deputado Marcel Van Hattem, líder do Partido Novo, um dos que moveram ações contra Lula.
Uma Homenagem Controversa
A Acadêmicos de Niterói elaborou um desfile que recontava a infância humilde do presidente, oriundo do interior de Pernambuco, e a jornada de sua mãe em busca de melhores condições de vida em São Paulo. A letra do samba-enredo, que expressa as aspirações de Dona Lindu, mãe de Lula, diz: “Me via nos olhares dos meus filhos, assombrados e vazios. Com o peito em pedaços, parti atrás do amor e dos meus sonhos.” Antes de avançar com o projeto, a escola buscou a autorização do presidente, que acolheu a proposta e recebeu os carnavalescos para um jantar no Palácio da Alvorada em setembro do ano passado. Durante o evento, Lula se emocionou e não conteve as lágrimas ao ouvir o samba.
A equipe do presidente, ciente da delicadeza da situação, consultou assessores jurídicos para entender as restrições que se aplicam em períodos pré-eleitorais. Ministros do governo que estavam presentes no desfile receberam instruções para permanecer na plateia, não participar diretamente do evento e evitar a utilização de verbas públicas. Além disso, o PT orientou os foliões a não utilizarem símbolos ou slogans relacionados às eleições de 2026.
Críticas e Reações da Oposição
Os opositores argumentam que as medidas adotadas pelo governo demonstram um reconhecimento de que a homenagem extrapola os limites legais. Eles reclamam que a Acadêmicos de Niterói recebeu substanciais recursos públicos para realizar o desfile. No entanto, advogados do governo defendem que todas as escolas de samba do Rio que participam do desfile oficial recebem montantes similares, e que tais recursos não estão atrelados a iniciativas artísticas específicas.
Até o momento, todas as ações judiciais foram arquivadas, uma vez que os juízes concordaram com a defesa do governo ou identificaram problemas processuais nas reivindicações. Um caso ainda está pendente no Tribunal de Contas da União (TCU), mas uma decisão preliminar também negou o bloqueio de verbas para o desfile. Apesar de Lula já ter participado de carnavais anteriores enquanto era presidente, sua presença não é comumente observada em festividades dessa natureza.
Para Tiago Martins, da Acadêmicos de Niterói, a disputa política ofusca o verdadeiro significado do desfile, que ele considera uma conquista artística profundamente pessoal. “O samba diz ‘tem filho de pobre virando doutor’, e eu, um filho de pobre, virando carnavalesco. Queríamos trazer a história do homem que fez muito pelo povo pobre, que fez muito pelo Brasil”, concluiu.

