Uma Viagem pela Memória Carioca
Se os objetos pudessem falar, quão ricas seriam as histórias que teríamos a oportunidade de ouvir. Já imaginou se eles abrissem uma boca metafórica para compartilhar os momentos que presenciaram ao longo do tempo? No contexto do aniversário de 461 anos do Rio de Janeiro, o violão de Cazuza, por exemplo, cantaria sobre a efervescência da boemia carioca e o movimento do rock brasileiro nos anos 80, durante um período decisivo de redemocratização do país. Já a escultura de dragão, que um dia adornou a escadaria das primeiras escolas públicas da cidade, poderia relatar as conversas infantis que aconteciam nos corredores cariocas do século 19. E a lanceta de vacinação, bem menos sofisticada que as seringas atuais, utilizada desde 1904, certamente evocaria os gritos de pavor e angústia da população durante a Revolta da Vacina.
Esses e outros objetos ajudam a contar a história do Rio de Janeiro, desde sua fundação até os dias atuais. Seja um canhão que pertencia aos soldados da Guerra de Canudos, que se estabeleceram no Morro da Providência, ou uma roleta do jogo do bicho utilizada no século 20, a narrativa que cada item carrega não precisa de magia ou fantasia para ser revelada. Essa rica coleção foi organizada por três historiadores no livro “História do Rio de Janeiro em 45 objetos”, lançado em 2019, e, a pedido do GLOBO, eles revisitaram a obra e trouxeram novos itens para essa interessante coletânea.
Paulo Knauss, historiador e diretor do Museu Histórico Nacional, reflete sobre a importância desses objetos: ‘Podemos enxergar a história do Rio através das coleções dos museus. Basta um olhar atento para compreender como esses itens nos ajudam a entender o passado, o presente e o caminho que trilhamos até aqui.’ Além da lanceta de vacinação do acervo da Fiocruz e do violão de Cazuza, Knauss destaca o molde da cabeça do Cristo Redentor, um símbolo icônico da cidade, esculpido pelo artista francês Paul Landowski na década de 1920. Essa peça é um testemunho de um movimento de separação entre Igreja e Estado durante uma fase de mobilização social importante no país.
Marcos Históricos e Transformações Sociais
Um marco relevante da história carioca foi a Exposição Internacional do Centenário da Independência, ocorrida em 1922. De lá, restaram vestígios como uma vitrine de madeira entalhada, que hoje faz parte do acervo do Museu Histórico Nacional. A historiadora Marize Malta descreve o evento como uma oportunidade para o Rio se mostrar ao mundo, com a participação de 14 países. No entanto, esse desejo de modernidade custou caro: a demolição de um dos berços da cidade, o Morro do Castelo, deu lugar a uma nova urbanização.
Na mesma época, o movimento modernista ganhava força no Brasil, e a famosa saia de Carmen Miranda, usada no final dos anos 30, simbolizava um período em que os cariocas começavam a adotar uma postura mais ativa na cena artística nacional. Hoje, essa peça faz parte do acervo do Museu Carmen Miranda e representa uma época vibrante, marcada pelos cassinos da cidade, como o Copacabana e o Urca.
A identidade carioca evoluiu ao longo do tempo, e a famosa sandália de dedo, embora tenha sido criada em São Paulo em 1962, se tornou um verdadeiro ícone no Rio de Janeiro. Knauss explica que, apesar de sua origem modesta, o chinelo transcendeu a imagem de ‘calçado de pobre’ e se consolidou como um símbolo de moda, sendo utilizado por pessoas de todas as classes sociais, especialmente nas praias cariocas.
Memória e Resistência Popular
Além dos itens de destaque, outros objetos também simbolizam movimentos históricos e importantes da cidade, como os estandartes abolicionistas da década de 1880. Infelizmente, apenas duas das sete peças sobreviveram a um incêndio em 1938 e podem ser vistas no Museu do Negro, recordando a luta pela libertação dos negros escravizados.
Na década de 1960, uma mesa de madeira na Câmara de Vereadores do Rio serviu de apoio para homenagear a memória do estudante Edson Luís, que foi assassinado durante um período sombrio da história brasileira, marcado pela repressão da ditadura militar. Seu corpo foi velado em um ato de resistência que culminou na famosa Passeata dos 100 mil.
Mais recentemente, a bandeira que a Mangueira levou ao carnaval de 2019, com as cores verde e rosa, tornou-se um símbolo poderoso ao carregar a inscrição ‘Índios, pretos e pobres’, refletindo as questões sociais mais urgentes enfrentadas pela cidade. Knauss observa a evolução dos desfiles de carnaval, que passaram de um enfoque cívico para discussões mais contemporâneas e relevantes.
Maria Isabel Lenzi, pesquisadora, enfatiza que mesmo sem emitir sons, os objetos são fundamentais para relembrar e situar as múltiplas transformações do Rio de Janeiro, desde sua época colonial até a vibrante cena do rock atual. ‘O aniversário do Rio é uma oportunidade para refletir sobre as várias identidades que a cidade abraçou ao longo dos 461 anos. Os objetos são lembranças que conectam o passado ao presente, e quando perdemos essa conexão, nos afastamos de nossa identidade e de um futuro coeso’, finaliza Lenzi.

