Um Retorno Marcante ao Palco Carioca
A companhia de teatro Grupo Tapa, reconhecida por sua trajetória de 47 anos, quebrou um hiato de uma década sem apresentações no Rio de Janeiro ao estrear a peça ‘Credores’, de August Strindberg. A montagem, que entrou em cartaz no Teatro Poeira, em Botafogo, não só marca um retorno, mas também traz uma nova tradução que promete explorar sentidos contemporâneos desta obra clássica. Segundo Tolentino de Araújo, um dos fundadores da trupe, a escolha pela tradução própria é fundamental para respeitar a oralidade e o contexto cultural no Brasil.
A companhia sempre se destacou por traduzir as peças que representa, não apenas por uma questão de adaptar a linguagem, mas para capturar a essência das relações e emoções presentes nas obras originais. Araújo explica que traduzir é compreender as nuances de cada idioma, e que a língua portuguesa, por exemplo, possui suas particularidades que não podem ser ignoradas — algo que se reflete diretamente nas performances do grupo.
Explorando Temas Universais
‘Credores’, escrita em 1887, é uma obra que, embora tenha mais de um século, antecipa discussões que ainda estão em voga hoje. A trama, que envolve um triângulo amoroso e psicológico, apresenta personagens que se debatem entre a manipulação, o ressentimento e os desejos não correspondidos. Araújo destaca que, na montagem, a ambiguidade do título — que em sueco não distingue gênero ou número — é um reflexo das complexidades das relações humanas. ‘Todos os personagens são tanto credores quanto devedores, representando a responsabilidade por suas ações’, afirma.
A narrativa, de acordo com Araújo, apresenta um cenário onde não há vilões ou mocinhos claros, o que provoca o espectador a refletir sobre a moralidade e as certezas estabelecidas. Com um elenco afiado, que inclui Sandra Corveloni, Bruno Barchesi, André Garolli e Felipe Souza, a peça se revela uma experiência intensa e provocativa.
Reflexões sobre a Contemporaneidade
O diretor também se mostra surpreso com a atualidade dos temas abordados por Strindberg. Ele aponta que a era digital e a falta de regulação da internet trazem à tona questões de responsabilidade que ecoam com as ideias apresentadas na obra. ‘Hoje, as pessoas se sentem autorizadas a opinar sem considerar as consequências de suas palavras. Isso se relaciona diretamente com a irresponsabilidade que Strindberg já criticava’, reflete Araújo, enfatizando a importância de se questionar a verdade em tempos de fake news.
O Grupo Tapa, que se mantém com receitas de bilheteria sem apoio contínuo, é um exemplo de resistência e inovação no cenário teatral brasileiro. Araújo compara a trupe a um “botequim sempre aberto”, pronto para acolher novas ideias e desafios. Ele acredita que, apesar das dificuldades enfrentadas, a ação constante é o que sustenta a companhia. ‘Não estamos aqui para lamentar. O que fazemos é resultado de uma escolha consciente de continuar criando e apresentando o que amamos’, conclui.

