Uma Viagem pela Memória Carioca
O livro digital “Achados & Perdidos — Imagens inéditas do Rio de Janeiro” traz uma coleção impressionante de 300 fotografias que capturam a essência do Centro do Rio, antes de uma das maiores transformações urbanísticas da cidade. As imagens, que datam de 1930 a 1940, foram selecionadas a partir de um acervo de mais de 14 mil registros fotográficos realizados pelos irmãos Aristógiton e Uriel Malta. Essas obras foram redescobertas há cerca de três anos no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ), após um longo processo de restauração e catalogação, e podem ser acessadas gratuitamente. Uma versão impressa está prevista para ser lançada em breve.
O projeto é uma iniciativa contemplada pelo edital Pró-Carioca da Secretaria Municipal de Cultura (SMC) e conta com a direção editorial de Leonel Kaz e design gráfico de Sula Danowski. O livro faz uma viagem visual por locais icônicos como a Praça Onze e a Igreja da Candelária, preservados por clamor popular, além de edificações que já não existem mais, como o antigo Paço Municipal, sede da prefeitura entre 1892 e 1942.
— Essas imagens pertenceram à antiga Secretaria de Viação e Obras e vieram para o Arquivo. Trabalhar em um acervo com oito milhões de documentos é descobrir e redescobrir coisas o tempo inteiro. Ao nos depararmos com esse material, tivemos a dimensão do verdadeiro tesouro que ele é, que precisava chegar ao público — comenta Elizeu Santiago de Sousa, presidente do AGCRJ.
O livro é também um convite à reflexão sobre as transformações urbanas que o Rio de Janeiro passou ao longo dos anos. A gestão de Henrique Dodsworth, interventor nomeado por Vargas, foi fundamental nesse processo de reestruturação da cidade, que ficou marcada por extensas demolições. O impacto dessas mudanças é evidente nas fotos, que mostram desde habitações populares até prédios do governo, refletindo a vida cotidiana na época.
Redescobrindo o Acervo Fotográfico
A maioria das imagens não possui autoria identificável, exceto algumas que trazem o sobrenome “Malta” escrito verticalmente, indicando a participação de Aristógiton, que chefiava o Gabinete Fotográfico da Prefeitura na época. Os pesquisadores Rafael Martins e Pedro Marreca, diretores do Centro de Documentação e do Centro de Ensino e Pesquisa do AGCRJ, falam sobre a importância desse acervo no livro.
Entre os registros raros apresentados, destaca-se a casa da Tia Ciata, um dos berços do samba carioca, e a Praça Onze, que já foi um vibrante centro cultural da cidade. O livro também mostra o Canal do Mangue antes da devastação, ainda cercado por palmeiras imperiais, que se tornaram um símbolo do Rio de Janeiro na primeira metade do século 20.
— São Pedro dos Clérigos estava na primeira lista de tombamento do Iphan, em 1938, mas foi destombada e demolida, apesar de um manifesto contrário assinado por figuras como Manuel Bandeira e Portinari — ressalta Leonel Kaz. — Essas imagens fazem parecer que o Rio é uma cidade que se reinventa a cada dia, e este livro é um testemunho disso. Não se trata apenas de arquitetura e urbanismo, mas de como as pessoas viviam e ocupavam esses espaços.
A Importância da Memória na Cultura Carioca
Lucas Padilha, Secretário Municipal de Cultura, enfatiza que este livro não apenas revela um tesouro iconográfico desconhecido, mas também serve como uma ferramenta para planejar o futuro da cidade. Segundo ele, “Conhecendo o passado, podemos planejar melhor o presente e o futuro”. A memória da cidade, segundo Padilha, deve ser acessível a todos, assim como serviços essenciais como saúde e educação.
O acesso a esse tipo de material é vital para a pesquisa acadêmica e para o público em geral que se interessa pela história do Rio. A obra “Achados & Perdidos” é, portanto, um importante passo para a valorização da cultura carioca e a preservação de sua rica história.

