Desafios Econômicos em um Cenário de Instabilidade
Na próxima eleição presidencial, marcada para este domingo (12), o Peru se torna novamente o centro das atenções. Tradicionalmente, o país é visto como um exemplo de gestão econômica, mesmo diante de crises políticas e mudanças constantes no comando do governo. Isso se deve à habilidade de administrar suas contas públicas, atrair investimentos estrangeiros e manter a estabilidade do sol, sua moeda, em meio a um ambiente político tumultuado. Essa aparente resiliência econômica fez com que outros países latino-americanos olhassem para o Peru com certa inveja, especialmente aqueles que enfrentam sérias turbulências financeiras.
No entanto, especialistas alertam que essa imagem de sucesso pode ser enganosa. Apesar de indicadores econômicos positivos, a realidade dos peruanos é marcada por um elevado custo social devido à instabilidade política. O economista Armando Mendoza, do Centro Peruano de Estudos Sociais, expressa sua preocupação: ‘A narrativa de que a economia e a política andam em trilhas separadas é apenas parcialmente verdadeira. Há um limite em que a política influencia a economia’.
A situação está longe de ser ideal e muitos argumentam que a economia nacional opera atualmente em um estado que Mendoza descreve como ‘piloto automático’ ou até mesmo ‘modo zumbi’. Os peruanos irão às urnas para escolher não apenas um novo presidente, mas também os membros do Congresso Nacional. Segundo recentes pesquisas, os dois principais candidatos são Rafael López Aliaga, um conservador ex-prefeito de Lima, e Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, que luta para ascender à presidência pela quinta vez.
A Estrutura Econômica do Peru
A economia peruana possui características estruturais que a beneficiaram ao longo dos anos. Trata-se de uma economia aberta, com um histórico de segurança jurídica que atrai investidores. Diferentemente de muitos de seus vizinhos, o Peru desfruta de uma das moedas mais estáveis da América Latina, o sol, o que proporciona um ambiente favorável para negócios. Um dos pilares dessa estabilidade é a autonomia do Banco Central de Reserva do Peru (BCRP), que opera de forma técnica, longe das disputas políticas, contribuindo significativamente para a macroestabilidade do país.
No entanto, desde a renúncia do ex-presidente Pedro Pablo Kuczynski em 2018, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do Peru tem ficado aquém das expectativas. Embora o país tenha experimentado crescimento médio de cerca de 4% ao ano nas duas primeiras décadas deste século, a média desde 2022 não ultrapassa 2,3%. Mendoza destaca que, se houvesse políticas econômicas mais consistentes, o crescimento poderia ser de 5 a 6% ao invés de apenas 3%.
Pobreza Crescente e Impacto Político
Os dados mais recentes revelam uma realidade preocupante: a pobreza no Peru, que era de 20% em 2019, saltou para 27,6% em 2024. Além disso, a renda formal continua abaixo dos níveis pré-pandemia. O cenário de 2023, com a destituição de Pedro Castillo por tentativa de golpe de Estado, ilustra como a instabilidade política afeta diretamente a economia. A crise resultante levou a uma retração de 0,55% na economia nacional, evidenciando o impacto negativo da política sobre a economia.
O que se observa é um “carrossel político” que dificultou a implementação de políticas econômicas consistentes. Mendoza ressalta que, em média, os presidentes peruanos não permanecem no cargo por mais de dois anos, o que torna impossível a formulação de estratégias de longo prazo. A média de permanência dos ministros da Economia é de apenas sete ou oito meses, levando a uma incerteza constante que afeta setores que dependem de planejamento a longo prazo, como a mineração.
Expectativas em um Cenário Incerto
Com a guerra no Oriente Médio elevando os preços do petróleo e potencialmente levando a uma recessão global, as previsões para a economia peruana são cautelosas. O Banco Central projeta um crescimento do PIB de cerca de 2,9% para este ano, um dado que poderia colocar o Peru como uma das economias com maior crescimento no continente, caso se concretize. Contudo, a permanência do presidente do Banco Central, Julio Velarde, 20 anos no cargo, será determinada pela escolha dos novos governantes. A expectativa é que a próxima administração busque romper com o estado atual da economia, permitindo que ela supere o que muitos chamam de ‘modo zumbi’. O desafio dos eleitos será, sem dúvida, criar um ambiente que garanta coesão social e progresso econômico para todos os peruanos.

