Alerj em Foco: O Cenário da Eleição Indireta
A iminente saída do governador Cláudio Castro (PL) para concorrer a uma vaga no Senado até abril desencadeou um processo histórico na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Pela primeira vez desde a redemocratização, a Alerj poderá realizar uma eleição indireta para escolher um governador temporário. Essa situação se complica ainda mais por conta das incertezas jurídicas e das movimentações nos bastidores políticos, que já começam a reconfigurar alianças e articulações dentro do Legislativo fluminense.
Desde a renúncia do vice-governador Thiago Pampolha em maio de 2025, que deixou o cargo para assumir uma vaga no Tribunal de Contas do Estado, o Rio enfrenta uma potencial dupla vacância no Executivo. Se Castro efetivar sua renúncia até o dia 4 de abril, o presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Ricardo Couto de Castro, assume temporariamente a governança e terá até 30 dias para convocar a eleição indireta, conforme estipulado pela Constituição Estadual.
Quem Pode Concorrer e Desafios Jurídicos
A realização da eleição indireta é prevista apenas em casos de vacância simultânea dos cargos de governador e vice. Nesse cenário, 70 deputados estaduais atuarão como colégio eleitoral para selecionar o novo chefe do Executivo, que ocupará a função até janeiro de 2027. Apesar da inexistência de uma lei complementar específica que regule esse processo no estado, há um consenso inicial de que os candidatos devem estar filiados a um partido político há pelo menos seis meses e atender aos critérios da Lei da Ficha Limpa.
No entanto, a questão mais controversa gira em torno da exigência de desincompatibilização dos ocupantes de cargos no Executivo. Conforme a Constituição, em eleições diretas, secretários e ministros precisam se afastar seis meses antes do pleito. O Supremo Tribunal Federal (STF), ao decidir sobre um caso em Alagoas, reiterou essa regra para eleições indiretas, mas deixou em aberto a aplicação dessa norma para casos como o do Rio, onde os candidatos geralmente são deputados estaduais ou figuras sem vínculo com a administração pública.
Debate sobre o Formato da Votação
Outro tópico delicado diz respeito ao formato da votação. O projeto de lei apresentado pelo deputado Luiz Paulo (PSD) propõe que a votação seja secreta, mas enfrenta resistência por parte de parlamentares que defendem um processo aberto, em nome da transparência. O STF, ao analisar a situação de Alagoas, não impôs um modelo específico, mas indicou que a publicidade deve ser a norma, validando a votação aberta adotada naquele estado. Contudo, essa flexibilidade abre espaço para questionamentos judiciais.
Na prática, o voto secreto é visto como um potencial gerador de instabilidade, já que pode favorecer movimentos dissidentes e acordos informais, especialmente em uma casa onde a maioria conservadora não atua de maneira completamente alinhada.
Fragmentação Política na Alerj
Atualmente, a composição da Alerj é dominada pela direita e pelo centro-direita, que somam entre 40 e 45 deputados. Esse cenário proporciona a esses grupos o controle das principais votações, enquanto mantêm uma postura crítica tanto em relação ao presidente Lula quanto ao prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), que já se declarou pré-candidato ao governo estadual nas eleições diretas de outubro.
Embora possuam uma maioria absoluta, o campo conservador é fragmentado, com divisões entre bolsonaristas ideológicos, parlamentares pragmáticos e grupos regionais. Essa falta de coesão torna o comportamento do plenário imprevisível em uma eleição interna, principalmente se o voto for secreto. A oposição de esquerda, com cerca de nove deputados, atua de maneira mais disciplinada e aposta na fragmentação do grupo conservador para aumentar sua influência política.
Articulações de Cláudio Castro
Frente a esse cenário de incertezas, Cláudio Castro intensificou suas articulações. Em uma reunião realizada na última segunda-feira (19), o governador buscou consolidar apoio em torno de seu candidato preferido para o cargo temporário: o secretário da Casa Civil, Nicola Miccione. Apesar dos movimentos de apoio ao secretário de Cidades, Douglas Ruas (PL), Castro reafirmou sua preferência por Miccione aos aliados.
Deputados que participaram da reunião, como Marcelo Dino e Arthur Monteiro (União Brasil), e Thiago Rangel (Avante), indicaram que a unidade em torno da indicação do governador foi mantida, embora a possibilidade de um bloco alternativo envolvendo o PL e a Federação União Progressista em apoio a Douglas Ruas tenha sido mencionada, sem que eles tenham sido consultados sobre isso.
Desafios e Riscos da Judicialização
A combinação de regras indefinidas, interesses conflitantes e precedentes jurídicos ambíguos torna a possível eleição indireta um dos episódios mais delicados da política fluminense recente. Especialistas divergem sobre a possibilidade de a Alerj flexibilizar prazos de desincompatibilização através de edital próprio, enquanto outros acreditam que essa mudança pode comprometer a legalidade do processo.
Se confirmada, a eleição do governador-tampão não será apenas um procedimento constitucional, mas também um importante teste de forças entre os blocos políticos da Alerj, impactando diretamente na eleição de outubro e no equilíbrio de poder no estado.

