Despedida de um Prefeito Polêmico
Após 4.827 dias à frente da prefeitura do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD) renuncia ao cargo nesta quarta-feira, 18, para se candidatar novamente ao governo do estado. Durante seus quatro mandatos, Paes deixou uma impressão marcante na cidade, sendo lembrado pelo desmantelamento do Elevado da Perimetral e pela transformação da Zona Portuária, que ganhou vida nova com o Boulevard Olímpico. Seu legado também inclui a criação de parques nas zonas Norte e Oeste e o início do programa Reviver, que visa reocupar o Centro da cidade. No entanto, Paes deixa seu vice, Eduardo Cavaliere, com a difícil tarefa de resolver problemas pontuais, como a fila para consultas médicas e cirurgias na rede pública, um compromisso de campanha que ainda não foi atendido.
Desafios Financeiros e Escopo de Obras
A gestão de Paes enfrentou um cenário financeiro desafiador nos últimos cinco anos, ao contrário de suas duas primeiras administrações, que contaram com recursos robustos para implementar grandes projetos, especialmente para os Jogos Olímpicos de 2016. Com um caixa municipal limitado, mesmo após a venda da Cedae, que rendeu cerca de R$ 5 bilhões, Paes precisou recorrer a empréstimos para manter as obras em andamento durante sua última gestão.
Ao retomar a prefeitura após a administração de Marcelo Crivella (2017-2020), Paes deparou-se com um ambiente caótico, especialmente em relação à mobilidade urbana. Recuperar o sistema de BRTs e finalizar o Transbrasil, que estava paralisado havia quase uma década, foram algumas de suas prioridades. O corredor foi finalmente inaugurado em março de 2024, sete anos após o prazo inicial, juntamente com o Terminal de Integração Gentileza (TIG) no Caju e uma expansão do VLT.
Iniciativas em Mobilidade e Saúde
No aspecto do transporte, Paes instituiu um sistema de subsídios para incentivar as empresas de ônibus a reintegrar coletivos ao sistema, que desapareceram durante a pandemia. Além disso, criou o Jaé, um novo sistema de bilhetagem que, embora tenha retirado o controle das mãos dos empresários, se tornou um desafio para os passageiros, que enfrentam filas longas. A organização do setor ainda está em andamento, com licitações programadas para as linhas de ônibus.
Uma antiga promessa de melhorar a mobilidade na Zona Sul, feita em 2016, segue sem avanço significativo. O projeto de um VLT de 10,4 quilômetros entre Botafogo e Leblon, com um custo estimado em R$ 1,7 bilhão, ainda não saiu do papel. A gestão também se esforçou para reabilitar o Aeroporto Internacional Tom Jobim, buscando aumentar o número de voos e atrair turistas.
Desafios na Saúde Pública
Em um panorama mais amplo de saúde, a prefeitura tentou reerguer o programa Saúde da Família, que viu sua cobertura despencar de 70% para 34,9% durante o governo anterior. Com a contratação de novos profissionais, esse número subiu para 73,89% ao final do ano passado. No entanto, ainda é complicado conseguir uma consulta ou exame na rede pública. Recentemente, o tempo médio de espera no Sistema de Regulação (Sisreg) era de 105 dias, embora tivesse caído de 160 dias há seis anos. Pacientes na área de cardiologia podem esperar até 234 dias por atendimento.
Outro ponto notável foi a introdução do medicamento Ozempic na rede municipal, uma promessa cumprida parcialmente por Paes, que até aplicou a injeção em sua primeira paciente em um centro de saúde na Zona Oeste.
Iniciativas de Urbanismo e Sustentabilidade
No campo do urbanismo, o programa Reviver Centro propõe transformar a área central do Rio em um espaço mais residencial, oferecendo incentivos para a conversão de imóveis comerciais em habitações. Apesar de ter autorizado 8.702 unidades desde 2021, apenas 1.256 apartamentos receberam o habite-se até agora. Projetos como a revitalização do Edifício A Noite, que se tornará um empreendimento de luxo, também estão entre as iniciativas que buscam melhorar a área.
Com eventos climáticos extremos em evidência, a prefeitura resolveu investir em áreas verdes, abrindo novos parques como o Suzana Naspolini e o Arlindo Cruz. Contudo, não houve obras de grande escala comparáveis ao Porto Maravilha nos últimos cinco anos.
Combate à Desordem Urbana e Segurança
A obra mais ambiciosa da gestão de Paes é o Anel Viário de Campo Grande, que está em fase final e visa reestruturar o trânsito do maior bairro do Brasil. O projeto inclui a construção de túneis e custará R$ 838 milhões, financiados por um empréstimo do BNDES. Além disso, a prefeitura aprovou uma lei que permite à Guarda Municipal portar armas, criando a Força Municipal, que iniciou operações há poucos dias.
Entretanto, o projeto de choque de civilidade, anunciado antes do início de seu quarto mandato, não avançou. A desordem urbana e as queixas sobre ocupações irregulares, falta de segurança e buracos nas ruas continuam a ser um desafio constante para a população carioca.

