Reflexões sobre o Impacto da Inteligência Artificial nas Eleições
A recente utilização de conteúdo audiovisual gerado por inteligência artificial no contexto político levanta questões profundas sobre o direito fundamental à realidade e seu papel no sufrágio. O presidente Lula, por exemplo, foi alvo de imagens manipuladas que supostamente mostravam sua forma física idealizada. Por outro lado, o governador Romeu Zema foi retratado como um cantor de uma banda. E, em uma das inovações mais emocionantes do mercado publicitário, uma campanha da Volkswagen apresentou Maria Rita ao lado de sua mãe, Elis Regina, em uma cena construída artificialmente. O que todas essas situações têm em comum? Elas nos levam a uma reflexão essencial sobre a autenticidade nas eleições.
Apesar de parecerem inofensivas, essas distorções podem gerar uma confusão significativa entre o que é real e o que não é. O que se percebe é que, diante de conteúdos que imitam a realidade com precisão, surge um apelo irresistível para escapar dos problemas cotidianos. A arte, conforme disse Ferreira Gullar, existe porque a vida muitas vezes não é suficiente. O dilema surge quando essa fuga não é intencional e leva à construção de realidades paralelas, onde a ficção é confundida com a realidade.
Além disso, o crescimento da desinformação em campanhas políticas se torna ainda mais preocupante quando analisamos o impacto de conteúdos sintéticos em grandes massas. Esses vídeos e imagens podem criar mundos alternativos, projetando uma nova versão da realidade que não apenas confunde, mas também manipula a opinião pública. O conceito de cheapfakes, que se refere a falsificações menos sofisticadas, ilustra como a desinformação pode estar à disposição de qualquer um que possua ferramentas simples de edição, perpetuando mentiras em um formato audiovisual aparentemente verossímil.
A Evolução das Deepfakes e seus Riscos
Por outro lado, a ascensão das deepfakes representa um perigo ainda maior. Essas tecnologias são capazes de gerar vídeos e áudios manipulados que são quase indistinguíveis da realidade. Um exemplo recente, que está sob análise no Tribunal Regional Eleitoral do Maranhão, trata de um áudio que o candidato derrotado alegou ter sido criado por inteligência artificial. A Polícia Federal, em sua avaliação, não conseguiu determinar se o conteúdo era genuíno ou falso, o que levanta um alarmante questionamento sobre as ferramentas disponíveis para validar a autenticidade nas eleições.
Esta situação evidencia a necessidade urgente de proteger a integridade do eleitorado. Nos casos em que a desinformação é disseminada, surgem realidades paralelas que distorcem a percepção pública e comprometem o processo democrático. Se em um contexto contratual alguém pode alegar nulidade baseado em um vício de consentimento, por que não aplicar esse mesmo raciocínio ao direito eleitoral? A manipulação de conteúdo pode induzir os eleitores a escolherem, não o melhor candidato, mas aquele que foi promovido por meio de narrativas enganosas.
A Importância de Proteger o Sufrágio e a Democracia
Reconhecer a importância de um ‘direito fundamental à realidade’ é essencial para preservar o sufrágio. Este conceito não se trata apenas de uma reflexão teórica, mas de uma necessidade prática em tempos de rápidas mudanças tecnológicas. À medida que as ferramentas de inteligência artificial se tornam mais prevalentes, a preservação da realidade como um conceito legal se torna imprescindível para garantir que a escolha democrática não seja manipulada por narrativas fabricadas.
As implicações são profundas. O uso de tecnologias que criam conteúdos enganosos não apenas compromete a formação da vontade do eleitor, mas também ameaça a própria estrutura do Estado democrático. É vital que o eleitor tenha acesso a informações verdadeiras e autênticas para que possa fazer escolhas informadas. Assim, a implementação de medidas que previnam a manipulação de informações torna-se uma questão de sobrevivência democrática.
Por fim, a discussão sobre o uso de inteligência artificial no contexto eleitoral deve ir além das inovações tecnológicas. É uma questão de ética e responsabilidade social, que deve ser debatida em um espaço público democrático. Comunidades políticas têm o direito de decidir quais técnicas podem ou não ser utilizadas no espaço eleitoral, considerando sempre a proteção da autonomia do eleitor e a integridade do sistema democrático.

