A força da direita no Rio de Janeiro
A recente reconfiguração do mapa eleitoral do Rio de Janeiro, que se tornou o terceiro maior colégio eleitoral do país, demonstra a dificuldade enfrentada por Lula e pelo PT desde a ascensão do bolsonarismo em 2018. Nas eleições presidenciais anteriores, entre 2002 e 2014, o Partido dos Trabalhadores (PT) obteve vitórias expressivas no estado, especialmente em áreas mais populares. Contudo, nas últimas eleições, essas mesmas regiões se voltaram massivamente para o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Para o pleito deste ano, a expectativa interna do PT é de minimizar os danos, uma vez que não há sinais de que a legenda possa superar a direita no Rio. O objetivo passa por uma perda menos acentuada em comparação a 2018, quando Bolsonaro conquistou uma vantagem de 13 pontos, o que corresponde a mais de 1,2 milhão de votos. O desempenho relativamente positivo do partido em São Paulo, onde a derrota de Lula aconteceu por uma margem menor do que em disputas anteriores, pode ajudar a amenizar os impactos no cenário carioca.
Establishment político e as alianças em jogo
Entretanto, um desafio considerável para os planos do PT é a resistência do establishment político local em se associar a Lula. Muitos políticos acreditam que a presença do presidente poderia prejudicar suas próprias chances eleitorais. O prefeito Eduardo Paes, que possui uma relação próxima com Lula, se destaca como a exceção, mas é ciente de que não pode ser visto como um apoiador incondicional do presidente, dado que as eleições nacional e estadual estão intimamente ligadas.
Buscando expandir sua estratégia, Paes indicou a advogada Jane Reis, irmã do influente político Washington Reis, como candidata a vice. O ex-prefeito de Duque de Caxias se comprometeu a apoiar Flávio, garantindo a colaboração de uma cidade que representa um dos maiores colégios eleitorais do estado e que está sob o comando de um familiar do dirigente.
Direita organizada e suas alianças
Por outro lado, a direita se organizou e apresentou suas alianças de maneira robusta. O filho de Bolsonaro foi incluído na divulgação do primeiro desenho da chapa, que conta com Douglas Ruas (PL) como candidato ao governo e Rogério Lisboa (PP) como seu vice. Para as eleições ao Senado, os nomes surgidos até agora são os do governador Cláudio Castro (PL) e do prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella (União). Juntos, PL, PP e União já elegeram 51 dos 92 prefeitos do estado em 2024, demonstrando a força de suas máquinas partidárias.
Diante dessa concertação oposicionista, o PT deposita suas esperanças na força de Paes. Na última sexta-feira, um dos principais nomes da legenda, o ex-presidente da Assembleia Legislativa André Ceciliano, se reuniu com o prefeito em uma tentativa de reaproximação, após um período de divergências públicas. Lula está previsto para visitar o Rio esta semana para compromissos ao lado do pré-candidato.
A estratégia do PT em um estado conservador
Diego Zeidan, presidente estadual do PT, ressaltou que, considerando o viés conservador do Rio, é estratégico ampliar as alianças e direcionar o foco para o centro político. “Eduardo é fundamental para nós, independentemente da escolha da vice”, afirmou Zeidan, mencionando que o prefeito terá duas agendas do PAC com Lula nos próximos dias. Além disso, Benedita da Silva será candidata ao Senado, fortalecendo a presença do partido na disputa.
Um histórico de vitórias e desafios
Historicamente, desde 1989, as eleições presidenciais no Rio têm sido dominadas por figuras ligadas ao trabalhismo, com exceção de 1994, quando Fernando Henrique Cardoso venceu em quase todo o estado. Lula, em algumas ocasiões, se beneficiou do suporte de lideranças locais, como no caso de Leonel Brizola, que em 1998 foi candidato a vice-presidente na chapa de Lula, contribuindo para que o petista tivesse uma votação expressiva no estado. No entanto, a partir de 2018, a direita se consolidou, aproveitando-se de questões como segurança pública e valores conservadores que ressoam entre os eleitores, que incluem uma significativa população evangélica. A situação política do Rio, assim, apresenta um desafio premente para o PT, que busca se reinventar e contornar as barreiras impostas pela nova dinâmica eleitoral.

