Decisão Crucial do STF
O destino político do Rio de Janeiro está prestes a ser definido pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que se reunirá na quarta-feira (8) para decidir sobre a eleição-tampão no estado, em meio a uma crise institucional sem precedentes. A Corte deverá avaliar se essa eleição será realizada de forma direta ou indireta, enquanto o desembargador Ricardo Couto, atual presidente do Tribunal de Justiça (TJ), se mantém à frente do Executivo fluminense, conforme a decisão do ministro Cristiano Zanin.
Especialistas em ciência política apontam que as intervenções do STF têm contribuído para a crescente insegurança jurídica no estado. Entretanto, eles ressaltam que as raízes dessa crise remontam a um período anterior ao desmantelamento da linha sucessória.
A Fragilidade do Cenário Político
A hegemonia do MDB, antes conhecido como PMDB, no Rio de Janeiro não foi substituída por outro grupo político que apresentasse a mesma força. O mandato do ex-governador Cláudio Castro (PL) foi, por sua vez, caracterizado por uma fragilidade notável, resultando em uma instabilidade política que afeta o estado atualmente. “A gestão de Castro não consolidou um poder firme, uma vez que ele era uma figura sem trajetória política robusta, marcada por hesitações em relação ao bolsonarismo e permissividade em relação à corrupção”, declara Paulo Henrique Cassimiro, professor de ciência política da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
O especialista observa que o espaço deixado pelo MDB, que governou o estado por 12 anos sob a liderança de Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, permanece vazio. Durante esse período, o partido se fortaleceu ao formar alianças, inclusive com governos petistas, o que, entre outros fatores, possibilitou a realização das Olimpíadas de 2016.
Desdobramentos da Crise Política
Após uma série de escândalos de corrupção, tanto Cabral quanto Pezão perderam influência no cenário político. O ex-prefeito Eduardo Paes, por outro lado, continua ativo na política, atualmente representando o PSD. Em 2019, Wilson Witzel tomou posse como governador, mas foi alvo de impeachment dois anos depois. Seu vice, Cláudio Castro, assumiu o cargo e foi reeleito no primeiro turno, embora a crise atual tenha se intensificado após sua decisão de renunciar um dia antes de um julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que poderia resultar na cassação de seu mandato por abuso político e econômico nas eleições de 2022.
A estratégia política de Castro visava favorecer a ascensão de Rodrigo Bacellar (União Brasil), então presidente da Alerj, mas Bacellar foi preso e afastado desde dezembro, suspeito de envolvimento em vazamentos de informações de operações policiais.
Análises de Especialistas
O ministro Luiz Fux, em resposta a essa instabilidade, modificou as regras para a eleição indireta, estabelecendo que o voto seria secreto e determinando um prazo de desincompatibilização de seis meses. Mayra Goulart, professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro, argumenta que a atual crise revela a fragilidade da base política de Castro. “Ele carecia de uma base eleitoral sólida e de forças que o apoiavam dentro de sua própria legenda”, ressalta.
Isabel Uchôa, pesquisadora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, destaca que a ascensão da direita no estado não representou uma ruptura com as estruturas políticas tradicionais. “Castro estava alinhado ao bolsonarismo, mas sua atuação não se restringia apenas a isso”, afirma.
Desafios Socioeconômicos e Políticos
Além da crise política, o estado do Rio de Janeiro enfrenta um cenário de decadência socioeconômica. Uma reportagem da Folha de S.Paulo aponta que questões como a corrupção nas forças policiais e o crescimento do crime organizado têm impacto em diversas áreas, desde serviços públicos até o setor cultural. “A fragilidade das dinâmicas produtivas alimenta a política, ao mesmo tempo em que a degradação socioeconômica torna a política suscetível à influência do crime”, pondera Goulart.
Cassimiro complementa, afirmando que a fusão dos antigos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro durante a ditadura militar contribuiu para os problemas estruturais que a região enfrenta atualmente. “O estado do Rio de Janeiro se tornou ingovernável”, conclui.

