Instabilidade na Venezuela e seus Reflexos Internacionais
A situação política na Venezuela se apresenta como um verdadeiro quebra-cabeça. Para que os planos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de colaborar com a presidente interina Delcy Rodriguez, deem certo, é imprescindível garantir a disponibilidade financeira necessária. Isso é especialmente crítico para assegurar o pagamento dos salários dos 115 mil integrantes das Forças Armadas, incluindo os 2 mil generais, que desempenham funções chave tanto no governo quanto em empresas estatais. Atualmente, a principal fonte de receita do país é o petróleo, que responde por 33% do Produto Interno Bruto (PIB) e cobre mais da metade das despesas governamentais. Recentemente, autoridades navais dos EUA interceptaram cinco navios petroleiros e os direcionaram para portos americanos, estabelecendo que todo o comércio de petróleo será gerido pelos EUA, com a promessa de que os recursos serão revertidos para o bem-estar dos venezuelanos. Em uma apresentação cercada de pompa, o secretário de Estado Marco Rubio divulgou um plano com três eixos: estabilização política, recuperação econômica e transição de poder.
Contudo, para entender a gravidade da situação, é preciso contextualizar o cenário. No dia 3 de janeiro, tropas especiais americanas invadiram a Venezuela, resultando em confrontos com a guarda pessoal do presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Célia Flores. O casal foi detido e levado para Nova York, onde enfrentará julgamentos por tráfico de drogas, entre outras acusações. Maduro, que assumiu após a morte de Hugo Chávez em 2013, consolidou um regime autoritário que tem sido alvo de críticas. Para evitar uma possível batalha pelo poder entre os apoiadores de Maduro, a CIA aconselhou Trump a nomear Delcy Rodriguez como presidente interina, mantendo intacta a estrutura governamental que sustentava o mandatário preso.
A Desafiante Missão de Delcy Rodriguez
Com a nova liderança, Delcy terá a tarefa de estabilizar a administração do país, o que só será viável com recursos financeiros. A Venezuela detém a maior reserva de petróleo do mundo, estimada em cerca de 300 bilhões de barris, e a intenção de Trump é modernizar a Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA), cujos altos cargos são ocupados por militares. Isso implicará a necessidade de demissões na estatal, um aspecto que pode gerar tensões, especialmente considerando a experiência de Trump em cortar funcionários durante seu governo. Embora a demissão em massa possa ser uma preocupação, a CIA está mais atenta ao potencial descontentamento entre os efetivos militares e membros de milícias armadas que historicamente têm alinhamento com o governo.
A preocupação se estende ainda mais quando se considera que, em caso de demissões, esses grupos podem ser atraídos para organizações criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), que atuam na compra de cocaína dos cartéis venezuelanos e na sua distribuição internacional. A situação é crítica, e um colapso na governança pode impactar até mesmo populações indígenas, como os yanomami, que habitam áreas na fronteira entre Brasil e Venezuela. Com cerca de 35 mil integrantes, essa comunidade já sofre com a exploração de suas terras por garimpeiros e madeireiros, especialmente durante a administração do ex-presidente Jair Bolsonaro, que facilitou a entrada de atividades ilegais em áreas protegidas.
A Imigração e suas Implicações Regionais
Pacaraima, município brasileiro na fronteira, serve como porta de entrada para muitos venezuelanos em busca de refúgio. Embora a prisão de Maduro não tenha impactado significativamente o fluxo migratório, uma nova crise armada poderá exacerbar essa situação. O Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur) reporta que 7,9 milhões de venezuelanos migraram para fora do país, incluindo 732 mil que se estabeleceram no Brasil. A imprevisibilidade das consequências da prisão de Maduro e as possíveis reações do governo americano indicam que os interesses de Trump se concentram na exploração do petróleo, ao passo que a instabilidade poderá provocar uma crise humanitária com repercussões globais. Se a Venezuela entrar em colapso total, as consequências não afetarão apenas o povo venezuelano, mas também envolverão diretamente a política e a economia dos Estados Unidos.

