A Influência do Tráfico em Paraty
A recente expansão do Comando Vermelho em Paraty trouxe profundas repercussões para os moradores, o comércio e os pontos turísticos da cidade. Um relato impactante é o de uma mãe, que descreve a dor de perder dois filhos para o tráfico de drogas. Este cenário trágico não é um caso isolado; ao longo de um ano, O GLOBO acompanhou dez adolescentes envolvidos com o tráfico, e seis deles já perderam suas vidas. É um retrato preocupante de um problema que afeta a juventude local.
Localizadas a apenas 13 minutos a pé do Centro Histórico, as comunidades da Ilha das Cobras e Mangueira, que estão próximas ao aeroporto, enfrentam uma realidade dura. A Rua Central, que as separa, se tornou um ponto de referência, onde uma simples tenda de açaí marca o início de uma história de violência e exclusão. Essas áreas começaram a ser dominadas por facções entre 2010 e 2011, durante a implementação das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) em outras regiões do Rio de Janeiro. Naquela época, o Comando Vermelho já operava na Ilha, enquanto o Terceiro Comando Puro dominava a Mangueira.
Os conflitos entre essas facções eram frequentes, como relata Alice, uma caiçara da Mangueira. Ela menciona ter perdido pelo menos 20 amigos nessa fase, todos adolescentes, que buscavam desesperadamente sair do mundo do crime. Um deles, segundo ela, foi assassinado em um mercado local, poucos dias após expressar o desejo de abandonar a vida de tráfico. A realidade é cruel, e a sensação de abandono se tornou comum entre os moradores: “Paraty não é apenas o Centro Histórico, há uma outra vida acontecendo ao nosso redor”, desabafa Alice.
Em 2021, a situação se agravou, com o Comando Vermelho assumindo o controle da Mangueira, resultando na expulsão de moradores como Alice e sua família. Eles foram forçados a deixar a casa onde viveram por anos, perdendo também o pequeno comércio que mantinham. “Em 24 horas, nos deram o ultimato para sair. Tivemos que deixar tudo para trás, foi muito doloroso. É meu bairro, onde nasci e fiz amigos. A tristeza maior é saber que isso não precisava ter acontecido, pois não há políticas públicas que nos protejam”, lamenta.
Continuidade das Expulsões e a Realidade do Comércio
As expulsões continuam a ocorrer em Paraty, com a cidade cada vez mais sob a influência do Comando Vermelho. Investigações da 167ª DP estão em andamento sobre uma expulsão recente no Morro do Ditão, onde uma moradora foi ameaçada por traficantes. Jorge, outro residente da Mangueira, também expressa sua preocupação com a situação. Ele observa que a venda de drogas nas ruas aumentou, e muitos dos envolvidos são adolescentes. No ano passado, 48 menores foram apreendidos na cidade, um sinal alarmante da crescente presença do tráfico. Preocupado com a segurança de seus filhos, Jorge optou por enviá-los para viver em outro estado.
Um policial civil da região relata que o Comando Vermelho, agora bem estabelecido em Paraty, está ampliando suas operações, afetando até mesmo os serviços básicos em bairros como o Condado. Um professor local comenta que, nesse bairro, ônibus municipais já não chegam ao interior, limitando o acesso dos moradores.
Impacto no Turismo e Medidas da Comunidade
A atuação do Comando Vermelho não se restringe às comunidades mais periféricas; áreas turísticas como Praia do Sono e Trindade também têm sido afetadas. Há relatos de extorsão a barqueiros e donos de estacionamentos, além de cobranças indevidas a turistas. A reação dos caiçaras, que se uniram para enfrentar os traficantes, mostra a resistência da comunidade, que ainda luta por seu espaço.
Apesar das dificuldades, a 167ª DP possui investigações em andamento sobre a exploração territorial do Comando Vermelho. Contudo, a falta de depoimentos tem dificultado a conclusão dos casos. As localidades afetadas incluem Paraty-Mirim, Costeira e Ponta Negra, entre outras. No Centro Histórico, um importante ponto turístico, ainda não foram registradas denúncias, mas a situação continua a ser monitorada com atenção.
Recentemente, uma reunião pública na Câmara Municipal abordou a questão da segurança em Trindade, além da ausência de um posto de polícia comunitária e a falta de ação do ICMBio, que deveria cuidar das reservas ambientais da região. O prefeito Zezé lamentou a escassez de recursos e a ausência de um juiz no município. O comandante da Polícia Militar anunciou o reforço de 90 agentes, que chegarão para combater a violência e fortalecer a segurança.
Além da violência, Alice e Jorge destacam a alta nos preços dos aluguéis como outro desafio para os moradores. “Um aluguel de dois quartos já custa mais de R$ 2 mil por mês. Para quem ganha um salário mínimo, isso é inviável. Nós, paratienses, não temos acesso aos espaços culturais, mas somos nós que fazemos a cidade funcionar enquanto vivemos à margem”, conclui Alice.

