A Celebração do Patrimônio Cultural Circense
O título de Patrimônio Cultural do Brasil, atribuído aos circos tradicionais, marca um momento histórico. Após 21 anos de espera, a decisão vem da Fundação Nacional de Artes (Funarte), que identificou cerca de 550 circos de tradição familiar em operação atualmente. Antes da pandemia, esse número chegava a aproximadamente 770. A história do circo no Brasil é rica e remonta a 1818, quando as primeiras companhias estrangeiras começaram a se estabelecer no país. No entanto, registros indicam que, em 1727, já existiam artistas no Brasil realizando performances com características circenses.
A Herança Familiar e Suas Histórias
A família de Mika, por exemplo, é um exemplo vivo dessa tradição, estando na quinta geração de circenses. Mika relembra que, assim como as mocinhas dos contos de fadas, suas ancestrais fugiram com o circo após se apaixonarem por seus integrantes. Sua história familiar é marcada por talentos e tradições. Neta de Antenor Almeida, um montador de estruturas de circo respeitado, Mika é filha de Wilson Almeida, que traz consigo um vasto conhecimento sobre a arte circense. Sua mãe, Loiri Mocellin, se apaixonou por Wilson durante uma apresentação e decidiu embarcar na vida itinerante do circo.
Mika vê a aprovação do título como um passo crucial para preservar a cultura circense frente a grandes espetáculos e as dificuldades enfrentadas, como a falta de alvarás para apresentações e o preconceito relacionado à arte de picadeiro. Ela afirma: “Este reconhecimento valoriza o circo de lona e respeita as famílias circenses que, apesar das adversidades, mantêm vivas tradições que passam de geração para geração.”
A Tradição do Palhaço Pão de Ló
Jonathan Cericola, conhecido como Pão de Ló, também é parte dessa rica herança. Com um nome artístico que homenageia seu bisavô, um palhaço que fez sucesso nos anos 30, ele se dedica à arte circense desde a infância. Jonathan recorda que, aos 8 anos, teve a oportunidade de assumir o picadeiro na ausência do palhaço principal, cumprindo um legado familiar. “Meus pais me alertaram sobre as responsabilidades do palco. Eu era o primeiro a me preparar e o último a deixar o picadeiro, sempre ciente de que as crianças queriam tirar fotos com o palhaço ao final do show,” revela.
Atualmente, Pão de Ló realiza apresentações nos fins de semana em Itaguaí, na Baixada Fluminense, onde o Circo Teatro Saltimbanco, sua família, está estabelecido. Durante a semana, ele e sua equipe viajam pelo Brasil, levando suas performances a diferentes públicos. A luta pela preservação da cultura circense é uma bandeira que Jonathan empunha com firmeza. Ele critica as tentativas de imposição de termos teatrais ao universo circense, defendendo que a identidade e a nomenclatura do circo devem ser respeitadas.
A História da Família Cericola e a Arte Circense
A história da família de Jonathan é um testemunho da dedicação à arte. Eles chegaram ao Brasil em 1893, desembarcando no Porto de Santos e, posteriormente, se estabelecendo no Rio de Janeiro. Cericola conta que já são 133 anos de atividades circenses, com um legado que remonta a músicos e bailarinos italianos que se uniram para formar uma companhia que se apresentaria em terras brasileiras.
A Importância do Reconhecimento Cultural
Os circos de Tradição Familiar operam de forma nômade, normalmente com grupos de cinco a 40 integrantes. Muitas dessas famílias já chegaram à oitava geração de artistas, criando uma identidade em torno de seus sobrenomes, que se tornam sinônimo de qualidade e tradição. A aprovação do Iphan, que reconhece esses circos como Patrimônio Cultural, ocorreu em uma reunião significativa, coincidentemente no mês em que se celebra o Dia Nacional do Circo, em 27 de março.
A relatora do processo, Desirèe Tozi, enfatizou a importância do circo familiar: “Não se trata apenas de um espetáculo, mas de um modo de vida, onde a família desempenha um papel crucial na preservação de conhecimentos e práticas que caracterizam a vida sob a lona.” Com isso, a luta pela valorização e proteção da cultura circense ganha um novo fôlego, e artistas como Pão de Ló se sentem valorizados e motivados a continuar suas tradições.

