Uma Noite de Emoções e Música
Cida Moreira deu início ao show “Me acalmo danando – A música de Angela Ro Ro” com a canção “Demais”, obra de Antonio Carlos Jobim e Aloysio de Oliveira, uma escolha significativa que ressoa com a intensa expressão amorosa da artista, que é um dos símbolos do samba-canção. Este tema já estivera presente nos shows de Ro Ro desde 1982, e trouxe à tona a essência de amores arrebatadores e excessos da vida. Logo em seguida, Cida apresentou “Devoção”, uma pérola do segundo álbum de Ro Ro, “Só nos resta viver” (1980), onde a força poética da letra magnetizou o público presente no clube Manouche, no Rio de Janeiro.
A letra da canção ecoou a busca por liberdade e entrega nas relações, um reflexo da conexão emocional que permeou todo o show. “Sempre é hora de brotar canções / Confessar paixões exiladas / … / Todo dia nova fantasia / O real que cria sonho e ilusão / Devoção de um poeta e louco / Que não abre concessão”, cantou Cida, revelando a profundidade das experiências que permeiam a obra de Angela Ro Ro. O público, encantado, fez com que a casa anunciasse sessões extras para a continuidade da apresentação, que seguiria em fevereiro, além da estreia em São Paulo marcada para o dia 4.
A Amizade e a Música
A relação íntima entre Angela Ro Ro e Cida Moreira remonta a décadas, desde que se tornaram amigas em 1978. As duas artistas, nascidas no Rio de Janeiro e em São Paulo, respectivamente, dividiram palcos e experiências por anos, moldando suas trajetórias musicais. A musicalidade única de Cida, marcada por uma voz operística e pela influência da Vanguarda Paulista, foi aprimorada ao longo dos anos, tornando-se mais visceral e autêntica. Ela trouxe à tona a canção “Gota de sangue” (1979), cujo contraste com a versão inicial evidencia a evolução de sua interpretação ao vivo, que a elevou à notoriedade.
Cida Moreira sempre honrou a obra de Angela Ro Ro, mas neste show, sua interpretação adquiriu uma nova camada de significado, especialmente com a amiga já em outra dimensão. A paixão e o respeito pela obra de Ro Ro foram palpáveis, como se Cida se permitisse imergir mais profundamente nas emoções que a música inspirou.
Desafios e Superação no Palco
A estreia do show foi marcada por um misto de emoções, desde o nervosismo inicial de Cida até um momento tenso com uma espectadora que a artista identificou como uma presença desconfortável. Apesar do clima pesado, Cida soube lidar com a situação, pedindo desculpas ao público e reconhecendo a tensão que isso causou. Este desabafo trouxe uma nova leveza ao espetáculo, permitindo que a artista e o público se reconectassem.
A interpretação de Cida se destacou pela inclusão de canções menos conhecidas, como “Karma secular” (1986), demonstrando sua capacidade de emprestar seu toque pessoal a cada música. Em “Amor, meu grande amor” (1979), por exemplo, a cadência do piano elevou a intensidade da performance, enquanto “Balada da arrasada” (1979) ganhou uma nova interpretação, quase como um tango.
Cida Moreira: Uma Intérprete Singular
Com cada canção, ficou evidente que Cida Moreira não apenas reinterpreta as músicas de Angela Ro Ro, mas as transforma, trazendo à tona sua própria essência. Ao cantar “A mim e a mais ninguém” (1979), o público pôde sentir a grandeza da conexão entre a intérprete e a poesia de Ro Ro, revelando um talento gigantesco que permeia as canções. Cida também habilmente entrelaçou a récita dos versos de “Solitários interplanetários” (1985) e “Sistema” (1983) no repertório, uma demonstração clara de sua admiração pela artista.
O show ainda apresentou “Escândalo” (1981), uma das composições de Caetano Veloso, em uma performance que encantou a todos. Antes do bis, Cida fechou a apresentação com o refrão de “Perfeição” (1993), de Renato Russo, outro ícone sensível, alinhando-os ao espírito poético de Ro Ro.
Para o bis, Cida Moreira surpreendeu ao interpretar “Summertime” (1935), standard do jazz, que frequentemente uniu as vozes de Ro Ro e Cida. Essa escolha simbolizou a irmandade musical entre as duas, refletindo a devoção à arte e aos sentimentos que não abrem concessão, deixando uma marca indelével no coração da plateia.

