Iniciativa do BNDES e o Futuro da Pequena África
No último sábado, 7 de março, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) deu início a uma nova fase do projeto que visa estruturar o Distrito Cultural Pequena África. Esta proposta tem como objetivo central a valorização da memória negra e a revitalização urbana nas áreas do Centro e da Zona Portuária do Rio de Janeiro.
Após um planejamento preliminar apresentado aos parceiros da iniciativa, que incluem representantes do governo federal e da prefeitura do Rio, o BNDES promoveu um encontro com lideranças locais e instituições da região. Durante sete horas, foram debatidos pontos-chave do masterplan, permitindo que a sociedade contribuísse com sugestões e opiniões sobre o projeto.
Leonardo Campos, gerente responsável pela iniciativa no BNDES, declarou: ‘Esse projeto é financiado com recursos próprios do BNDES, por meio do Fundo de Estruturação de Projetos, sem incentivos fiscais. Para sua execução, contamos com parceiros estratégicos.’ A proposta visa transformar o território em um símbolo de memória e cultura afrobrasileira, promovendo uma regeneração urbana através de infraestrutura acessível e de qualidade. ‘Queremos estabelecer um Distrito Cultural dinâmico e sustentável que una cultura, turismo e economia criativa, respeitando a governança participativa e o protagonismo local’, afirmou Campos.
A escuta pública, um elemento central desde o início do projeto, é realizada em parceria com o Consórcio Valongo Patrimônio Vivo. Essa abordagem orientou todo o trabalho, que será acompanhado por um subcomitê permanente até 2025. Entre dezembro de 2024 e o primeiro trimestre de 2025, foram realizadas mais de 15 horas de oficinas presenciais em locais como o IPHAN e a Galeria Providência, além de fóruns e grupos de discussão temáticos.
Renato Emerson, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ressaltou a importância das propostas que se organizam em três eixos principais: reconhecer a violência histórica e valorizar as resistências da Pequena África, fortalecer as raízes culturais afrobrasileiras e ativar vocações locais para fomentar a inclusão e a qualidade urbana. ‘Precisamos dialogar com as lutas e experiências que emergem da comunidade negra’, enfatizou o professor.
A etapa inicial do projeto contemplou pesquisas qualitativas e quantitativas, bem como visitas técnicas a iniciativas de museologia comunitária e gestão cultural em regiões com forte presença negra, como Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Esses insights foram fundamentais para definir as diretrizes do masterplan preliminar. Marcos Motta, assessor da presidência do BNDES, afirmou que esta nova fase se dedicará a aprofundar as propostas do masterplan em diálogo com a população da Pequena África, visando garantir que a estruturação do distrito reflita os laços históricos e contemporâneos da região e atenda às demandas de reparação e desenvolvimento.
O projeto também será submetido à análise de parceiros institucionais que oferecem patrocínio, apoio técnico e colaboração. Entre os envolvidos estão a Prefeitura do Rio de Janeiro, o Ministério da Cultura, o Ministério da Igualdade Racial, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. O prazo estabelecido para essas avaliações é de 120 dias.
Felipe Guerra, arquiteto do escritório Jaime Lerner, explicou que o projeto se fundamenta no conceito de “acupunturas urbanas”, que consistem em intervenções estratégicas que geram impactos significativos na região. ‘Acreditamos que soluções simples, quando bem posicionadas, podem provocar mudanças duradouras’, resumiu.
O masterplan apresenta propostas para habitação, novos parques e melhorias na mobilidade urbana, além de políticas de ação afirmativa que garantam a inclusão de 55% de profissionais pretos e pardos, e 30% de moradores da Pequena África. Um dos equipamentos planejados é o Centro de Interpretação e Museu Vivo Pequena África, que terá como missão preservar e divulgar a memória negra no território.
Valéria Bechara, arquiteta e líder do Consórcio, destacou que as propostas surgem a partir de diagnósticos realizados na região, enfatizando que a comunicação visual servirá para identificar as demandas locais. ‘A Pequena África tem uma história que precede qualquer decreto ou projeto’, finalizou.
Pelo menos mais duas oficinas estão agendadas: uma voltada aos novos equipamentos públicos e outra sobre a sustentabilidade financeira do projeto e a criação da APA.

