A Persistência em Busca de Títulos
Alycia Louyse, de apenas 14 anos, enfrenta o desafio da Atrofia Muscular Espinhal (AME), uma doença que causa a perda progressiva de movimentos. Apesar das limitações, ela luta para continuar sua trajetória no jiu-jitsu e almeja retomar o tratamento que é custeado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O professor de jiu-jitsu Carlos Castro, que a acompanha no projeto, destaca a dedicação da jovem: “Quando Alycia chegou aqui, achou que isso iria atrapalhar, mas ao perceber que conseguia realizar as mesmas atividades que os outros atletas, notei o brilho em seu olhar. Ela nunca se entrega, está sempre presente nas competições e raramente falta aos treinos.”
No ano passado, Alycia decidiu participar de um torneio, uma experiência que a deixou entusiasmada. No jiu-jitsu, não existem categorias específicas para atletas com deficiência, o que a fez competir contra adversários sem limitações. O resultado foi surpreendente: ela conquistou várias medalhas em eventos regionais e se mostrou determinada a ser uma grande campeã, sonhando com competições em que possa realmente se destacar.
Uma Luta Além dos Tatames
Entretanto, para que seu sonho se torne realidade, Alycia enfrenta um obstáculo significativo: a busca pelo medicamento necessário para o seu tratamento. Com um custo mensal estimado entre R$ 20 mil e R$ 30 mil, a família, composta por sua mãe, que é professora, seu padrasto, servidor público, e sua tia, auxiliar administrativa, trava uma batalha judicial desde 2025. O objetivo é garantir o fornecimento do remédio, que teve sua distribuição suspensa. A mãe de Alycia, Patrícia Fernandes, relata a frustração ao tentar adquirir o medicamento: “Fui à farmácia da prefeitura e fui informada que não havia estoque. Essa situação se repetiu por três meses seguidos. Precisamos dessa medicação. Embora não traga a cura, pode proporcionar melhorias significativas.”
A Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro (SES-RJ) emitiu uma nota afirmando que a responsabilidade pelo cumprimento da decisão judicial é compartilhada entre o estado e o município. No entanto, não foi especificado um prazo para a aquisição do medicamento, enquanto os efeitos da falta de tratamento já se fazem notar nos treinos de Alycia.
Impactos da Falta de Tratamento
Segundo Carlos Castro, o professor que a treina, a jovem começou a apresentar perda de massa muscular e força, o que afeta tanto seu desempenho quanto seu bem-estar psicológico. “Ela tinha uma musculatura definida, mas, com o tempo, notei uma queda nessa força, o que a deixa mais cansada e insegura em relação aos golpes que antes conseguia executar com facilidade.”
Um especialista consultado aponta que a situação judicial pode resultar em penalidades para o estado caso a urgência do tratamento não seja reconhecida, evidenciando que a lentidão do processo administrativo não deve ser prevalente diante da gravidade da doença.
Superando Limitações
Alycia, que começou a apresentar limitações desde a infância, só recebeu o diagnóstico de AME tipo 3 aos 10 anos, em 2021, após um agravamento de seu quadro. Sua mãe relembra que, desde pequena, Alycia enfrentava dificuldades até para brincar com outras crianças. “Quando ela se mudou para o Maranhão, a situação piorou e ela perdeu a força muscular, o que a impediu de desempenhar atividades simples.” Para ajudar a jovem, Patrícia decidiu trazê-la de volta ao Rio e incentivou a prática do jiu-jitsu, uma modalidade que a jovem inicialmente não gostou, mas que acabou se tornando parte essencial de sua vida.
“No começo, eu não gostava, sentia que não era para mim. Mas minha mãe insistiu e hoje não consigo mais viver sem o jiu-jitsu”, afirma Alycia, que encontrou no esporte não apenas uma forma de se manter ativa, mas também um meio de inspirar outras pessoas que enfrentam desafios semelhantes.
Oportunidades Através do Esporte
O projeto social Ciespp de Portas Abertas, do Centro de Instrução Especializada e Pesquisa Policial da Polícia Militar, localizado na Maré, oferece oportunidades a cerca de 300 jovens em diversas modalidades esportivas, incluindo jiu-jitsu, wrestling, muay thai, capoeira, ginástica e futebol, de forma gratuita. Os organizadores do projeto não apenas incentivam a prática esportiva, mas também promovem a educação, criando um ciclo de oportunidades para jovens da comunidade.
O subtenente Bragança, envolvido no projeto, destaca a importância dessa integração entre esporte e educação como uma forma de fortalecer os laços comunitários e promover um desenvolvimento saudável entre os jovens.

