Aumento Preocupante nos Afastamentos de Professores
Na região de Piracicaba, interior de São Paulo, as escolas têm enfrentado um desafio crescente. Em 2025, foram registrados 396 afastamentos de professores por problemas de saúde, um cenário que levanta alarmantes questões sobre o bem-estar desses profissionais. Mulheres entre 50 e 59 anos, que atuam na educação básica II, representam a maior parte desses afastamentos, totalizando 268 casos. Os dados, obtidos pela EPTV, afiliada da TV Globo, através da Lei de Acesso à Informação (LAI), ressaltam a urgência de medidas eficazes para garantir a saúde física e mental dos educadores.
O especialista em psicologia e educação da Unicamp, Ronaldo Alexandrino, chamou a atenção para a necessidade de uma abordagem mais eficaz por parte do Poder Público. Ele enfatizou que a discussão sobre o adoecimento docente não deve ser encarada apenas como uma questão individual, mas também como um reflexo das políticas públicas voltadas para a educação.
Perfil dos Professores Afastados
Dados mais detalhados mostram que, entre os afastados no último ano, 332 são professores da educação básica II (6º ao 9º ano), 45 atuam no ensino fundamental e médio, e 9 na educação básica I (1º ao 5º ano). Em relação ao tipo de contrato, a maioria, 259, são docentes efetivos, enquanto 115 têm estabilidade e 22 são temporários. Além disso, 374 professores foram afastados temporariamente, enquanto outros 22 se encontram afastados de forma indeterminada, embora as razões para esses afastamentos não tenham sido especificadas.
Desafios da Profissão e Impacto na Saúde Mental
O relato de docentes que passaram por essa realidade é revelador. Uma professora, com 20 anos de experiência na rede estadual, compartilhou sua experiência de afastamento devido a um transtorno misto de ansiedade e depressão. Segundo ela, os dados refletem uma convivência cada vez mais problemática entre alunos, professores e gestores, onde a pressão para atender a um perfil desejado pela administração escolar é constante.
“Se você não se encaixa, está fora. E isso não tem a ver com competência, mas com afinidade”, completou a profissional, que optou por manter sua identidade em sigilo. Ela ainda relatou a falta de empatia de algumas gestões: “Recebi advertências como ‘não chore’, enquanto muitas vezes eu me escondia para chorar”, desabafou.
Outro relato impactante veio de uma professora que enfrenta problemas respiratórios. Ela revelou que, mesmo doente, sentiu-se pressionada a continuar trabalhando em virtude da avaliação constante pelo órgão educacional. “Tive crises de asma recorrentes, mas não podia me afastar, pois isso me prejudicaria na avaliação,” contou.
A Resposta da Secretaria de Educação
A reportagem buscou respostas junto à Secretaria de Educação do estado de São Paulo, que informou estar atenta aos afastamentos e se comprometendo a implementar ações voltadas para a saúde mental dos professores. Um novo serviço de teleatendimento, previsto para ser ativo até janeiro de 2025, já registrou 875 mil atendimentos em psicologia e 52 mil em psiquiatria.
Além disso, a Secretaria atribui os afastamentos às mudanças enfrentadas pela categoria, que incluem a adaptação às novas tecnologias e exigências que surgiram após a pandemia. A administração estadual se compromete a fortalecer políticas de acolhimento e escuta para melhorar a situação enfrentada pelos educadores.
A Necessidade de Diálogo e Compreensão
Ronaldo Alexandrino destaca que é fundamental que os gestores públicos ouçam os educadores para desenvolver políticas que realmente atendam as necessidades do corpo docente. “O diálogo é essencial. Precisamos entender as causas do sofrimento docente e agir em consequência,” concluiu o especialista.
Os dados sobre os afastamentos em Piracicaba e as experiências compartilhadas pelas professoras refletem uma realidade que clama por ação e empatia. O olhar para o ser humano deve prevalecer nas decisões que envolvem essas figuras tão essenciais na formação das futuras gerações.

